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- VIII -

Amâncio sentiu um grande alívio, quando se achou afinal inteiramente só; a porta do quarto bem fechada e a luz do bico de gás quase extinta.

Estava morto de fadiga. As enfadonhas conversas de Coqueiro e Mme. Brizard, o jugo inquisitorial das cerimônias, a pândega da véspera, tudo isso dava àquela caminha fresca, de lençóis limpos, um encanto superior ao que houvesse de melhor no mundo. Seu corpo, quebrado de impressões diversas e na maior parte consumidoras e lascivas, bebia aquele repouso por todos os poros, voluptuosamente, como um sequioso que se metesse dentro da água.

Aninhou-se, encolheu-se, abraçado aos travesseiros, ouvindo com uma certa delícia esfuziar o vento nas portas e, lá fora, desencadear-se o temporal, arremessando água aos punhados contra telhas e paredes.

E deixava-se arrebatar pelo sono, como se deslizasse por uma ladeira interminável de algodão em rama.

Os acontecimentos do dia começaram a desfilar em torno de sua cabeça, em procissões fantásticas de sombras duvidosas e fugitivas. Dentre estas, era o vulto de Lúcia o que melhor se destacava, com o seu andar quebrado e voluptuoso, a remexer os quadris, atirando a barriga para a frente. Chegava a distinguir-lhe perfeitamente os grandes olhos amortecidos e a sentir-lhe o perfume que ela trazia essa tarde no lenço e nos cabelos. Em seguida vinha a outra, a Amelinha, mas não com a lucidez da primeira. E logo depois Mme. Brizard, com o seu todo pretensioso; Nini, a fitá-lo muito aflita, as mãos inchadas e sem tato, o cabelo escorrido sobre a cabeça, cheirando a pomada alvíssima, bata de lã escura e sinistra como um burel. E depois, numa confusão vertiginosa -Coqueiro, a berrar versos, dançando no ar e a sacudir em uma das mãos um punhado de feijões pretos; e Paula Mendes a jogar os murros com a mulher; e Dr. Tavares a discursar com os braços erguidos para o ar; e César, o menino prodígio, a escarafunchar o nariz freneticamente; e Pereira, de olhos fechados, a andar como um sonâmbulo; e o...

Mas os vultos de todos se confundiam e desfibravam, como nuvens que o vento enxota. Amâncio já os não distinguia.

Acordou às oito horas do dia seguinte, meio inconsciente do lugar onde se achava. Logo, porém, que caiu em si, levantou-se de um pulo e abriu a janela de par em par. Um jato de luz dourada invadiu-lhe a alcova.

Olhou a manhã, que estava de uma transparência admirável. A chuva de véspera limpara a atmosfera; corria fresco. Os bondes passavam cheios de empregados públicos; viam-se amas-de-leite acompanhando os bebês; senhoras que voltavam do banho de mar, o cabelo solto, uma toalha ao ombro.

Aquele movimento era comunicativo. Amâncio sentiu vontade de sair e andar à toa pelas ruas. Todo ele reclamava longos passeios ao campo, por debaixo de árvores, em companhia de amigos.

Foi para o lavatório cantarolando; o sono completo da noite fazia-o bem disposto e animado.

Mal acabava de preparar-se quando bateram de leve na porta. Era uma mucamazinha, que já na véspera lhe chamara por várias vezes a atenção durante o jantar.

Teria quinze anos, forte, cheia de corpo, um sorriso alvar mostrando dentes largos e curtos, de uma brancura sem brilho.

Vinha saber se o Dr. Amâncio queria o café antes ou depois do banho.

Amâncio, em vez de responder, agarrou-lhe o braço com um agrado violento e grosseiro.

Ela pôs-se a rir aparvalhadamente.

***

Às dez horas, ao terminar o almoço, estava já resolvido que o rapaz, naquele mesmo dia, se mudaria definitivamente para a casa de pensão.

Com efeito, pouco de pois, no escritório de Campos, dizia a este, cheio de maneiras de pessoa ajuizada, «que afinal descobrira em casa da família de um amigo o cômodo que procurava». Agradeceu muito os obséquios recebidos das mãos do negociante, desculpou-se pelas maçadas que causara naturalmente e pediu licença para despedir-se de D. Maria Hortênsia.

Campos, logo que soube qual era a casa de pensão de que se tratava, aprovou a escolha, citou pessoas distintas que lá estiveram morando por muito tempo, e recomendou ao estudante -que lhe aparecesse de vez em quando; que não se acanhasse de bater àquela porta nas ocasiões de apuro, porque seria atendido, e, afinal, perguntou se Amâncio queria receber a mesada, já ou mais tarde.

-Como quiser... respondeu o provinciano, sem ter, aliás, a menor necessidade de dinheiro. E foi embolsando a quantia.

D. Maria Hortênsia recebeu-o com muito agrado. A irmã não estava em casa.

Conversaram.

Ela sentia que Amâncio se retirasse assim tão depressa; -mas, quem sabe? talvez não se desse bem ali; não fosse tratado como merecia...

O estudante protestava, jurando que não podia ambicionar melhor tratamento do que lhe dispensaram; reconhecia, porém, que já causava muito incômodo, e por conseguinte devia retirar-se. Não queria abusar.

Hortênsia afiançava e repetia que ele não dera incômodo de espécie alguma. -Tudo aquilo era feito com muito gosto!

Agora parecia mais familiarizada com o provinciano. Chegou a dirigir-lhe gracejos; disse, com um sorriso de intenção, que «sabia perfeitamente o que aquilo era! O que eram rapazes! -Não se queriam sujeitar a certo regime; só lhes servia pagodear à solta! Enfim!... tinham lá a sua razão... Se ela fosse rapaz faria o mesmo, naturalmente!».

Amâncio estranhou que tais palavras viessem de que vinham, e, não querendo perder a vaza, retorquiu com febre: «Que Hortênsia estava enganada a respeito dele, que não o conhecia! Se, à primeira vista ele parecia um pândego ou um sujeito mau, não o era todavia no fundo! Ninguém amava tanto a família; ninguém! desejava o lar com tanto ardor e com tanto desespero! Oh! que inveja não tinha de Campos!... que inveja não tinha de todo o homem, a cujo lado enxergava uma esposa bonita e carinhosa!...»

Hortênsia agradeceu com um sorriso.

-Oh! Quanto fora injusta!... prosseguiu Amâncio, com o rosto esfogueado de comoção. -Quanto fora injusta! O seu ideal, dele, era justamente o casamento; era possuir uma mulherzinha, cheirosa e meiga, com quem passasse a existência, ditosos e obscuros no seu canto, vivendo um para o outro, ignorados, egoístas, não cedendo nenhum dos dois, a mais ninguém, a menos particulazinha de si -um sorriso que fosse, um olhar amigo, um aperto de mão!

-Que rigor! exclamou Hortênsia, tomando certo interesse pelo que dizia o estudante. -Que rigor! Não o supunha assim, seu Amâncio!...

-Oh! Era assim que ele entendia o verdadeiro amor!...

E, cada vez mais quente:

-Era assim que ele amaria! Era assim que ele cercaria de beijos o anjo estremecido que o quisesse recolher à tepidez consoladora de suas asas! Era assim que ele sonhava a existência de duas almas gêmeas, soltas no azul, gozando a voluptuosidade do mesmo vôo.

-Pois é casar-se, meu amigo... aconselhou a mulher de Campos, pasmada de ouvir Amâncio falar daquele modo. -Não o fazia tão prosa!...

E, como era preciso dizer qualquer coisa, acrescentou muito amável:

-Quem sabe se alguma fluminense já não lhe voltou o miolo!...

Ele confessou que sim, sacudindo tristemente a cabeça. E, de tal modo exprimiu o seu amor por «essa fluminense», tão ardente e tão apaixonado se mostrou, que Hortênsia instintivamente se ergueu, a olhar para os lados, sobressaltada como se tivesse cometido uma falta.

Não quis saber de quem se tratava.

Deu uma volta pela sala, foi ao aparador, tomou alguns goles d'água e, procurando mudar de conversa, falou do baile que havia essa noite em casa do Melo. -Devia ser muito bom, constava que havia quinze dias se preparavam para a festa. Era em Botafogo. Campos, logo que recebeu o convite, lembrou-se de levar Amâncio consigo, este, porém, tão raramente aparecia em casa, e agora, com esta mudança...

-Não. Campos falou-me, disse o estudante.

-Ah! sempre chegou a lhe falar?

-Há três ou quatro dias; mas eu não tencionava ir...

-Por quê? O senhor é moço, deve divertir-se.

-A senhora vai?

-Sim, vou.

-Nesse caso irei também.

E Amâncio ligou tão expressiva entonação àquelas palavras, que Hortênsia abaixou os olhos, já impaciente, sem mais vontade de conversar.

-Seria possível, pensava ela -que aquele estudante lhe quisesse fazer a corte?... Não! não seria capaz disso, e, se fosse, ela saberia desenganá-lo! Ah! com certeza que o desenganava!

Campos subiu daí a um instante, e Amâncio, depois de combinar com ele que voltaria à noite para irem juntos à casa de Melo, entregou as suas malas a um carregador e saiu.

Sentia-se alegre; a nova atitude de Hortênsia dava-lhe um vago antegosto de prazeres; previa com delícia os bons momentos que o esperavam.

-E agora é que vou deixar a casa!... pensava ele já na rua. -Que tolo fui! Abandonar a empresa, justamente quando me sorri a primeira esperança! «Mas pedaço de asno, argumentava com seus botões -não calculaste logo que aquela mulher mais dia menos dia havia de escorregar? Por que diabo então não esperaste um pouco?...» Ora! mais que caiporismo, o meu! Sair nesta ocasião! Perder uma conquista tão boa! Agora também que remédio lhe hei de dar? O que está feito, está feito! A este momento minhas malas talvez já tenham chegado à casa de Coqueiro! E com este nome assaltaram-lhe logo o espírito as imagens de Lúcia e de Amelinha.

-Bem me dizia Simões, pensou ele. -Bem me dizia Simões: «Quando te começarem as aventuras, hás de ver o que vai por esta sociedade!»

E Amâncio, que não conseguia reter na cabeça as palavras dos seus professores, Amâncio, que era incapaz de guardar na memória um fato, um algarismo, uma fórmula científica, conservava, entretanto, com toda a inteireza aquela frase banal, pronunciada por um pândego em um almoço de hotel, depois de dúzia de garrafas de vinho.

O Simões tinha toda a razão... principiavam as aventuras! Diabo era aquela asneira de abandonar tão intempestivamente a casa de Campos! Fora uma triste idéia, que dúvida! Mas, ele também não podia adivinhar quais seriam as intenções de Hortênsia!... O melhor por conseguinte era não se apoquentar -o que lhe estivesse destinado havia de chegar-lhe às mãos!...

E já nem pensava nisso quando subiu as escadas da casa de pensão. Sorrisos amáveis de Amelinha e Mme. Brizard o receberam desde a entrada. Coqueiro estava na rua.

Veio à conversa o baile dessa noite. Amâncio, pela primeira vez, ia conhecer uma sala da Corte. As duas senhoras profetizavam que ele voltaria cativo por alguma carioca.

-Duvido! -respondeu o estudante, a rir.

-É! disse a francesa -vocês do Norte são todos uns santinhos! Eu já os conheço! Nunca vi gente tão assanhada.

Amelinha abaixou os olhos, depois de lançar à outra um gesto repreensivo.

Mme. Brizard não fez caso e acrescentou:

-Os demônios não podem ver um rabo-de-saia!

-Loló! censurou Amelinha em voz baixa.

-Também não é tanto assim!... contradisse o provinciano.

Mme. Brizard citou logo os exemplos de casa, até ali entre todos os seus hóspedes, só os nortistas devam sorte em questão de amor. -Um deles, um tal Benfica Duarte, chegara a raptar com escândalo uma crioula, e crioula feia!

Amelinha, bem contra a vontade, soltou uma risada, que lhe desfez por instantes o ar inocente da fisionomia; mas recuperou-o logo, e lembrou à cunhada «que não deviam estar ali e roubar o tempo a seu Amâncio. Ele tinha que cuidar das malas que já o esperavam no quarto».

-Nós podemos ajudá-lo nesse trabalho, acudiu a velha. -Certas coisas só ficam bem feitas por mão de mulher!

O estudante aceitou o oferecimento, e os três seguiram para o gabinete, sempre a rir e a conversar.

Amelinha, enquanto Amâncio entrava no quarto, observou, em voz baixa a Mme. Brizard, que não achava conveniente que esta arriscasse em sua presença pilhérias como as de ainda há pouco. -O rapaz, por muito ingênuo que fosse, podia desconfiar com aquilo e persuadir-se de que ela, Amelinha, não daria uma noiva bastante séria e digna dele! Que, às vezes, por estas e outras indiscrições, desmanchavam-se casamentos!

-Como te enganas! respondeu a velha -já compreendi bem esse sujeito: a sua corda sensível são as mulheres! Gosta que lhe falem nisso! Tu, do que precisas, é opor-lhe dificuldades, sem que o desenganes por uma vez; nega, mas promete, que obterás a vitória. Quando ele te pedir um beijo, dá-lhe um sorriso; e, quando quiser muito mais, dá-lhe então o beijo, contanto que te mostres logo arrependida, envergonhada, chorosa, inconsolável, e disposta a não lhe ceder mais nada, e disposta a nunca lhe pertenceres, a nunca lhe perdoares aquele atrevimento. E, se ele insistir, repele-o, insulta-o, jura que o desprezas e fá-lo acreditar que amas a outro. -É dessa forma que o hás de agarrar, percebes? Lá quanto às minhas chalaças de ainda há pouco, descansa que por aí não irá o gato às filhoses.

Nesse momento, o rapaz acabava de abrir as malas. As duas senhoras apareceram no quarto.

Ele tinha muita roupa branca, e tudo bom. Camisas finas de linho, ricas toalhas de renda marcadas cuidadosamente por sua mãe, fronhas bordadas, mostrando o seu nome entre labirintos e desenhos caprichosos.

Sentia-se o amor, o desvelo, com que tudo aquilo fora arrumado; cada objeto parecia conservar ainda a marca da mão carinhosa que o acondicionara a um canto da arca. Alguns denunciavam o trabalho paciente de longos tempos, traziam à idéia calmos serões à luz do candeeiro. Adivinhava-se, pelo completo daquele enxoval, a previdência de um coração materno; nada faltava.

À proporção que se iam tirando as peças de roupas, uma tepidez embalsamada respirava dentre elas; parecia que um perfume ideal de beijos se exalava ao desdobrar dos brancos lençóis de linho; percebia-se que muita lágrima e muito soluço ficaram abafados no fundo daquelas arcas.

Vieram ao provinciano novas e mais vivas saudades de Ângela. Uma vaga tristeza apoderou-se dele; ficou distraído, a olhar silenciosamente para as roupas que as duas mulheres empilhavam no chão e sobre a cama. Sentiu, compreendeu, que ele próprio, à semelhança daquelas arcas, havia também de ir perdendo, pouco a pouco, todas as ilusões, todos os perfumes, com que saíra impregnado dos braços de sua mãe.

E afastou-se do quarto para limpar as lágrimas. As lágrimas, sim, que o fato de sua primeira viagem, as impressões da Corte, a saudade, as aventuras amorosas, as ceatas pelos hotéis, davam-lhe ultimamente uma sensibilidade muito nervosa e feminil. Elas acudiam-lhe agora com extrema facilidade, chorava sempre que se comovia. Às vezes, no teatro, assistindo à representação de qualquer drama de efeitos, ficava envergonhado por não poder impedir que os olhos se lhe enchessem d'água; a simples descrição de um desgraça perturbava-o todo; a música italiana o entristecia; a idéia de um feito heróico ou de um rasgo de perversidade era o bastante para lhe agitar a circulação do sangue e formar-lhe godilhões na garganta.

Quando voltou ao quarto, já os baús estavam despejados.

Mme. Brizard não se fartava de elogiar a boa qualidade das fazendas, o bem cosido das roupas, a pachorra e asseio com que tudo fora feito. Apreciava o trabalho das marcas; chamava a atenção de Amélia para os bordados, para os labirintos e para as rendas.

-Olha! disse-lhe, mostrando um pano de crochê -o desenho é justamente como aquele da toalha do oratório. Só faltam aqui as duas borboletas do canto.

E arrumava tudo, com muito cuidado, nas gavetas da cômoda. Tomava religiosamente sobre os braços os pesados lençóis, os maços de ceroulas em folha, os pacotes intactos de meias listradas, os de lenço barrados de seda, os colarinhos de todos os feitios, as gravatas de todas as cores. E não acondicionava uma peça sem afagá-la, sem lhe passar por cima as mãos abertas.

-O rapaz estava provido de tudo! disse em voz baixa. E, depois, acrescentou alto, rindo: -Podia até casar se quisesse!

-Falta o principal... respondeu ele.

-Que é? acudiu logo Amélia.

-A noiva! explicou o moço, olhando intencionalmente para a rapariga.

-Deve estar à sua espera no Maranhão... volveu ela.

E abaixou os olhos com um movimento de inocência, muito bem feito.

-Não vê! exclamou a velha. -Então um rapaz desta ordem deixava as meninas da Corte para amarrar-se a uma provinciana?... Seria de mau gosto!

-Não sei por que, retorquiu Amâncio, ligeiramente escandalizado. -Na província há senhoras bem educadas, muito chiques!

-Sei, sei, perfeitamente, disse Mme. Brizard, evitando contrariá-lo. Sei que as há... mas é que o Sr. Vasconcelos tem elementos para desejar muito melhor! Seria pena que um rapaz tão perfeito não escolhesse uma noivazinha comme il faut. -Bonita, instruída, que soubesse entrar e sair numa sala, conversar, fazer música, recitar, servir um almoço, dirigir uma soirée. Além de que, meu caro senhor, as provincianas, em geral, saem muito mais exigentes do que as filhas da Corte.

E, como Amâncio fizesse um ar de espanto:

-Sim, porque a fluminense, habituada como está na capital e familiarizada com os bailes, com os espetáculos do lírico, com os passeios, já se não preocupa com essas coisas e, uma vez casada, dedica-se exclusivamente ao lar, ao marido e aos filhinhos; ao passo que com as outras, as provincianas, sucede justamente o contrário, visto que ainda não conhecem aqueles gozos e só desejam o casamento para conhecê-los. Daí as suas exigências; nada cabeça descansada nos ombros dele, as mãos frias, a respiração as satisfaz, porque tudo fica muito aquém dos seus sonhos da província; o que para as outras é tudo, para elas não é nada. Bailes e teatros toda a noite, carruagens, lacaios, vestidos de seda, dez ou vinte criados, nada as contenta, nada corresponde ao que elas ambicionam. E o marido, o pobre marido de semelhante gente, depois de arruinado e depois de passar uma existência sem amor e sem conchegos de família, ainda terá de suportar as queixas e os ressentimentos de uma mulher desiludida e blasé.

-Perdão! replicou o estudante. -Isso prova simplesmente que toda a mulher, seja da província ou da Corte, apresenta sempre certa dose de ambições. Com a diferença, porém, de que a provinciana, por isso mesmo que o Rio de Janeiro é o seu ideal, é o seu sonho dourado, contenta-se com ele; enquanto que a outra, visto que o supradito Rio de Janeiro para ela nada mais é que o comum, estende naturalmente a sua ambição -e quer Paris. O Passeio Público já não a satisfaz, é preciso dar-lhe Bois de Boulogne; já não lhe chegam carruagens, criados e teatros; quer tudo isso e mais um título de baronesa pelo menos!

E, encantado com a clareza do seu argumento, continuou a discutir, chegando à conclusão de que seria loucura desejar uma mulher isenta de ambições e caprichos, e que ele já se daria por muito satisfeito se encontrasse alguma, cujo ideal não fosse além do Rio de Janeiro.

Amélia era precisamente dessa opinião, mas entendia que, mesmo na Corte, se encontravam meninas bem educadas e, aliás, muito modestas.

Amâncio declarou que não argumentava com exceções. -Sabia perfeitamente que nem todas as fluminenses calçavam pela mesma forma, e não tinha a pretensão de dizer «desta água não beberei, deste pão não comerei!» apenas não admitia aquela razão, que apresentava Mme. Brizard, para provar que as provincianas eram mais dispendiosas do que as filhas da Corte. Isso não! que o desculpassem, mas não podia admitir!

Sempre queria vê-lo casado com uma provinciana!... observou a francesa, tomando a roupa que lhe passava a outra. -Então sim! Aposto que não teria a mesma opinião!

Amâncio não respondeu logo, porque estava muito ocupado a apanhar do chão uma grande pilha de camisas engomadas, que Amelinha deixara cair. Mme. Brizard acudiu também a ajudá-los, e, na precipitação com que todos três, agachados um defronte dos outros, queriam ao mesmo tempo recolher a roupa espalhada no soalho, as mãos do estudante encontravam-se com umas mãozinhas finas que não eram certamente as de Mme. Brizard.

Mas todas as vezes que ele tentou retê-las entre as suas, as tais mãozinhas fugiam tão ligeiras, como se lhes houvessem chegado uma brasa.




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- IX -

O baile em casa de Melo esteve bom. Este, muito magro, de suíças negras, olhos fundos e movimentos rápidos, não descansava um instante; tão depressa o viam conduzindo senhoras pela escada, como a receber apresentações na sala de jantar, como a formar quadrilhas; voltando-se para todos os lados e atendendo a todas as pessoas.

O Melo tinha boas relações e alguns bens adquiridos no comércio; nunca se envolveu diretamente com a política; mas prezava o monarca e esperava, com resignação, um habito que há dez anos lhe haviam prometido pingar sobre a lapela da casaca. A mulher, que já não era criança, ainda metia muita vista e passava por bonita; homens, que envelheceram com ela, citavam-na como um tipo de formosura.

Amâncio foi recebido com especial agrado, graças ao Luís Campos que era íntimo do dono da casa.

A circunstância de que ali se achava só, no meio de tanta gente estranha, como que apertava o círculo de suas relações com a família do correspondente. Fazia-se muito deles, muito aparentado; não dispunha de mais ninguém para desabafar as suas impressões e para conversar um pouco mais à vontade.

Assim, quando saltamos em um porto pela primeira vez, sentimos estreitarem-se de repente nossas relações com os companheiros de bordo, ainda mesmo que os conheçamos de poucos dias.

Até Carlotinha parecia mais expansiva, principalmente depois que Amâncio se revelou insigne dançador de valsa. Ela era louca pela dança. Maria Hortênsia notara igualmente que o provinciano tinha um certo talento coreográfico muito peculiar, e não ficou isolada nesse juízo, porque várias senhoras se declararam da mesma opinião.

Não tardou muito a que semelhante julgamento se estendesse pelas outras salas, e em breve estavam todas as damas de acordo que Amâncio era o melhor par daquela noite.

Com efeito, se ele em qualquer outra coisa não conseguiu a perfeição, na dança ao menos nada se lhe tinha a desejar, dançava admiravelmente, por vocação, por índole, por um jeito especial do corpo, e com um amaneirado gracioso que sabia dar aos braços, à cabeça, e às pernas,. Pode-se dizer que na valsa dispunha de um estilo próprio, original.

Quando, sacudido pela música, os olhos meios cerrados, a boca meia aberta, arremessava-se com a dama no turbilhão da sala, tinha alguma coisa de pássaro que desprende o vôo. Ficava até mais bonito; os cabelos crespos tremiam-lhe romanticamente sobre a testa; o cansaço dava ao moreno de suas faces uma palidez misteriosa e doce. E, com o braço direito engranzado à cintura do par, o esquerdo repuxando nervosamente a mão que a dama estendia sobre a sua, ele empertigava-se todo com delícia, a fechar os olhos e a rodar extasiado, embevecido, como se fora arrebatado por entre nuvens de arminho.

No seu temperamento, excessivamente lascivo, gozava com sentir ligado ao corpo o corpo precioso de uma mulher de estimação; comprazia-lhe em beber-lhe o hálito acelerado pela dança, embebedava-se com respirar-lhes os perfumes agudos do cabelo e o infiltrante cheiro animal da carne.

Afinal, depois de uma valsa, estonteado e ofegante atirou-se ao canto do divã em que estava Hortênsia.

Confessava-se prostrado, a limpar o suor do pescoço e da fronte. Fora imensa a valsa e ele cansara três pares que se abateram inúteis, como as espadas de Ney na batalha de Waterloo.

-Apre! disse.

As senhoras olhavam-no já com respeito, acompanhavam-lhe os menores movimentos com enorme interesse.

-Muito bem! muito bem! cochichou-lhe a mulher de Campos. -Ignorava que o senhor fosse tão forte na valsa!

E começaram a conversar sobre o mal que se dançava ultimamente. Ela declarou que uma das coisas que mais apreciava, era a boa valsa. Isso desde criança; no colégio, às vezes, as meninas passavam a hora do recreio dançando uma com as outras.

-Ninguém o diria... considerou Amâncio, fazendo-se muito seu camarada. -A senhora hoje só tem querido dançar quadrilhas.

Ela respondeu com um risinho significativo.

-Quer uma valsa comigo?... perguntou o rapaz, em segredo, requebrando os olhos.

-Não posso! disse ela, quase com um suspiro. -Aceitaria de bom grado, mas não posso...

-Valha-me Deus! Por quê?

-Porque...

Hortênsia sorriu de novo, sem ânimo de confessar a verdade -o marido não gostava de a ver valsar. Também não se podia desculpar, dizendo que não sabia, porque ainda há pouco dissera justamente o contrário; afinal, sem fazer empenho de ser acreditada acrescentou gracejando.

-Porque... porque me faz mal...

Amâncio prometeu que a conduziria devagar e que não dançaria longo tempo seguido; aceitava todas as condições, contanto que desfrutasse a suprema ventura de lhe merecer uma valsa.

Hortênsia não respondeu; tinha o olhar esquecido sobre um grande quadro que lhe ficava defronte suspenso da parede. E abanava-se, lentamente, como seguindo o vôo de um vago pensamento voluptuoso.

O quadro representava uma cena de Fausto e Margarida, no jardim (um longo beijo apaixonado que parecia soluçar entre a folhagem misteriosa do painel. O encantado filósofo tomava nas mãos brancas a loura cabeça de sua amante, e sorvia-lhe a alma pelos lábios. O sol morria ao longe, dourando a paisagem, e um casal de pombos arrulhava à sombra azulada de uma planta).

Hortênsia olhava para isso, enquanto, ao gemer das rebecas, cruzavam-se na sala os pares, marcando contradanças. O aroma das flores, que se fanavam em grandes vasos japoneses, misturava-se ao cheiro das mulheres e penetrava a carne com a sutilidade de um veneno lento e delicioso como o fumo do charuto. Os membros lácteos das senhoras, expunham-se nus à grande claridade artificial do gás; as jóias faiscavam; os olhos desfaleciam e um calor gostoso ia infirmando os sentidos e entontecendo a alma.

-Então?... pediu Amâncio, pondo muita doçura na voz -dance comigo, sim?... Faça-me a vontade. Eu sentiria nisso tanto gosto...

E todo ele suplicava aquele obséquio, com o empenho apaixonado de quem pede uma concessão de amor.

Ela dizia que não, meneando a cabeça; mas, um sorriso, que se lhe escapava dos lábios, dizia o contrário.

-Então!... sim?... sim?... um bocadinho só! insistia o estudante, a devorá-la com os olhos.

Estava ainda cansado; a voz não lhe vinha inteira, mas quebrada, como por um espasmo; os olhos dele arqueavam-se luxuriosamente; as pernas principiavam-lhe a tremer.

-O que lhe custa, à senhora, dançar um pouquinho comigo?...

E, vendo que ela não respondia, balbuciou em tom magoado, de criança ressentida:

-Bem, bem, não lhe peço mais nada, não a importunarei de hoje em diante. Desculpe!

Hortênsia voltou-se para ele, ia talvez desenganá-lo; mas a orquestra, que havia emudecido depois da quadrilha, deu sinal para a «valsa». Era o Danúbio, de Strauss.

O rapaz ergueu-se como um soldado que ouvisse tocar o rebate.

Ela não resistiu, levantou-se de um salto e entregou-lhe a cintura.

Dançaram. A princípio vagarosamente: depois, como a música se acelerasse, Amâncio arrebatou-a. Ela deixou-se levar, a cabeça descansada nos ombros dele, as mãos frias, a respiração doida.

A música redobrou de carreira.

Foi então um rodar convulso, frenético: a casa, os móveis, as paredes, tudo girava em torno deles.

Hortênsia dançava tão bem como o rapaz. Os dois pareciam não tocar no chão; os passos casavam-se como por encanto; as pernas gravitavam em volta uma das outras com precisão mecânica.

Encheu-se a sala de pares. Amâncio fugiu com Hortênsia, sem interromper a valsa; pareciam empenhados numa conjuntura amorosa. Ela arfava, sacudindo o colo com a respiração; os seus braços nus tinham uma frescura úmida; os olhos amorteciam-se defronte dos dele; não podia fechar a boca, o seu hálito misturava-se ao hálito fogoso do estudante.

De repente, Amâncio parou, exausto. Ouvia-se-lhe de longe a respiração.

-Não! não! balbuciava ela, quase sem poder falar. -Ainda! mais um pouco!...

E abraçaram-se de novo, freneticamente.

Quando parou a música, Hortênsia caiu sobre um divã pelos braços de Amâncio.

Não podia dar uma palavra; não podia abrir os olhos. Sua respiração parecia longos suspiros contínuos e estalados.

Vários cavalheiros se aproximaram.

-Ficou muito fatigada?... perguntou Amâncio, inclinado-se sobre ela, a mão apoiada nas costas do divã.

Hortênsia não respondeu. Cobriu o rosto com o lenço de rendas e continuou recostada. Foi a voz do marido que a despertou.

-Que loucura é esta Neném?... perguntou ele, sorrindo com o seu bom ar de homem honesto.

Ela sorriu também, e pediu desculpas com o olhar.

-Sabes que te faz mal, para que valsas?...

Hortênsia soltou uma risadinha de intenção e disse baixinho: Não é o mal que me faz que te dá cuidado...

-Como assim?

-Ora, é que tu não gostas muito de me ver valsar...

-Porque te faz mal, filha!...

-É só por isso? afianças que não tens outro motivo?

Campos respondeu com um movimento de ombros.

-Olha lá!... ameaçou a bonita senhora, sacudindo um dedinho da mão direita. -Olha! que sou muito capaz de, hoje em diante, não perder mais uma só valsa!...

Ele repetiu o movimento dos ombros, e acrescentou:

-Isso é lá contigo, filha; a saúde é tua, faze o que entenderes, ora essa!

Algumas pessoas perceberam o seu mal humor e riram com disfarce.

Nessa ocasião, Amâncio encostado ao bufê, pedia que lhe servissem um grogue à americana.

-Está retemperando a fibra? perguntou-lhe um sujeito magrinho, elegante, meio calvo, a bater-lhe amigavelmente no ombro.

O estudante voltou-se apressado e, logo que viu o outro, exclamou:

-Oh! o Dr. Freitas! Como passou? Não sabia que estava também por cá!

Freitas respondeu com a sua vozinha gasta -que chegara havia pouco; não lhe fora possível vir antes; tivera que acompanhar o enterro de um parente! -Coitado! cacete até depois de morto, três necrológicos de hora e meia cada um!... Ah! os parentes! os parentes eram uma desgraçada invenção, principalmente se não deixavam alguma coisa!

E, depois de retesar o peito da camisa e puxar a gola da casaca:

-Mas então como ia o Sr. Amâncio de Vasconcelos?... Pela fisionomia jurava-se que tinha saúde para dar e vender, e, pelos atos, não parecia menos disposto, porque o Freitas presenciara a conversa do amigo com Hortênsia.

E rindo:

-Homem, faz você muito bem! Aproveite enquanto está no tempo! Se eu tivesse a sua idade, com a experiência de que disponho hoje, não havia de proceder como procedi! Oh! aquele aforismo tem muito fundo! «Si jeunesse savait...»

E a olhar para os pés, com o gesto cheio de tédio: -Gostei de o ver na valsa, gostei seriamente! Ah! Eu é que já não sou homem para estas coisas! Aceito tudo, menos o que me obrigue à fadiga!

Amâncio fez-se modesto; negava que dançasse bem; mas o outro, em vez de insistir nos elogios, como esperava ele, perguntou-lhe muito descansadamente por que razão não lhe apareceu depois da primeira visita.

O estudante desculpou-se com a falta de tempo e excesso de estudo. Havia, porém, de aparecer, mais tarde.

As relações com o Dr. Freitas procediam de uma carta de recomendação, que um amigo do velho Vasconcelos lhe arranjara. Freitas era uma excelente amizade para qualquer estudante pouco escrupuloso; dispunha de ótimas relações, que podiam servir de empenho nas épocas apertadas de exame.

Tinha alguma coisa, gostava de ir à Europa de vez em quando, e os seus quarenta e tantos anos não espantavam a ninguém; ao contrário, ainda havia muito olho esperto de mulher que se arregalava para o ver. Isso sem falar nas senhoras que se foram aposentando, enquanto ele parecia eternamente empalhado nos seus fraques irrepreensíveis, nos seus chapéus à moda e nos seus enormes sapatos à inglesa de um elegantismo feroz. Em consciência, ninguém o poderia qualificar senão de rapaz. As mulheres eram o seu fraco, o seu vício mais acentuado; várias anedotas suas, inspiradas neste assunto, corriam de boca em boca há vinte anos.

Amâncio ficou muito seu camarada, desde a primeira visita. Em menos de uma hora de conversação, falavam já sobre as cocotes mais conhecidas na Corte; e, alguns dias depois, quando se encontraram na Fênix, Freitas apresentou-lhe uma espanholona de buço louro, a qual nessa ocasião passava pelo corpo mais bonito do mundo equívoco.

-Pois você já está um fluminense acabado! disse o elegante, a medir Amâncio de alto a baixo. -Não imaginei que andasse tão depressa...

E, porque voltasse à conversa sobre mulheres, continuou o que dizia há pouco:

Infelizmente só chegamos a conhecê-las quando vamos caindo na idade; de sorte que é preciso aproveitar o espaço que medeia dos trinta aos quarenta anos; antes disso -não sabemos, depois -não podemos. Ah! se aos vinte já se conhecesse a mulher... se então já se soubesse quais são os seus gostos e suas preferências... se tal acontecesse, nem uma só se conservaria virtuosa!... Mas, nesse período dos sonhos e das ilusões, no período em que está o senhor, meu amigo, ninguém é capaz de uma audácia! Para chegar a fazer qualquer coisa é preciso ser provocado, mas muito provocado!

Amâncio protestava com um sorriso pretensioso.

-Oh! oh! exclamou o outro, cheio de experiência, a calcar o monóculo sobre o olho. -Já tive a sua idade, meu amigo, já tive a sua idade! Pensava então que, para agradar mulheres, era indispensável fazer-me bonito, meigo, romântico, atencioso, que sei eu!... Engano! puro engano! Elas aborrecem tudo isso, e só exigem coisas num homem: a primeira: -muita audácia; a segunda -um pouco de inteligência; a terceira -algumas relações na boa sociedade! e... ainda temos uma de que me esquecia e que, entretanto, é a base de todas as outras: -Não ser seu marido! Com estas quatro qualidades, desde que se tenha mocidade e boa disposição, não há mulher que resista! Quanto à beleza, boas maneiras e bom caráter -histórias, homem! histórias! Elas, ao contrário, detestam os tipos afeminados e não morrem de amores pelos sujeitos rigorosamente honestos e bem comportados. Qual! Querem o seu bocado de vício; o belo deboche de vez em quando, para variar!...

E metendo as mãos nos bolsos da calça, e jogando o corpo com um ar canalha:

-Lá para a seriedade basta-lhe o marido! É boa!

Amâncio ria-se, abarrotado de intenções. Freitinhas foi nesse momento apreendido pelo dono da casa: «As damas reclamavam a sua presença, dele, nas salas! Era preciso não se meter pelos cantos!»

Dr. Freitas deixou-se levar, sempre muito enfastiado; mas, antes de ir, bateu no ombro de Amâncio e segredou-lhe com a sua voz de tuberculoso:

-Aproveita, menino, aproveita! Não mandes nada ao bispo!

***

Iam já desaparecendo os convidados. Os pais de família toscanejavam encostados às ombreiras das portas, esperando, com os braços carregados de capas e mantas, que as mulheres e as filhas se resolvessem a seguir para a casa. Havia um vago tom de cansaço nas fisionomias; entretanto, alguns cavalheiros jogavam ainda, em um quarto próximo à luz trêmula das velas da estearina. Melo conduzia senhoras pelo braço à porta da rua, agradecendo-lhes muito o obséquio de aceitarem o seu convite.

Foi Amâncio quem ajudou Hortênsia a entrar na carruagem. Campos parecia contrariado com a demora -há duas horas que desejava retirar-se.

Encurtaram-se despedidas. O horizonte principiava a franjar-se com os galões prateados da aurora, e, do lado das montanhas desciam tons mutatinos de natureza que desperta.

Hortênsia, muito embrulhada na sua capa de casimira branca e guarnecida de arminhos, atirou-se com impaciência sobre as almofadas do carro, levantando um luxuoso farfalhar de sedas que se amarrotam. Logo, porém, que o cocheiro sacudiu as rédeas ela chegou o rosto à portinhola, e gritou para fora:

-Aparece domingo! Vá jantar conosco. Adeus!

Amâncio, perfilado na calçada, o chapéu suspenso na mão direita, em atitude de quem faz um cumprimento respeitoso, disse agitando o braço:

-Adeus, minha senhora. Hei de ir.

O carro de Campos tomou a direção da praia de Botafogo, o rapaz ainda o acompanhou com a vista; depois, levantando os ombros e abotoando melhor o sobretudo, meteu-se num tílburi que se aproximava lentamente e mandou tocar para a casa de pensão.

O animal disparou, sacudindo as crinas ao vento fresco da manhã.

Amâncio acendeu um charuto e, com os olhos meio cerrados, derreou-se para o fundo do tílburi.

Naquele momento sentia gosto em se fazer muito farto, muito cansado de amores. Suas últimas impressões enchiam-lhe o cérebro de uma espécie de vapor azotado, que asfixiava todos os outros pensamentos.

-A continuarem as coisas daquele modo, dizia ele consigo, chupando o charuto aos solavancos do carro -em breve o tempo será pouco para tratar só de namoros!...

A cada passo que dera na sua inútil existência, rasgara com o pé uma página do livro das ilusões. Mas a presença deste raciocínio, longe de afligi-lo, dava-lhe à vaidade um certo prazer doentio e picante.

-Como poderia acreditar agora nas tais virtudes femininas?... Pois se até falhara a própria mulher de Campos!...

Quando poderia ele imaginar que Hortênsia tão severa e tão grave ainda há pouco, uma criatura por quem todos «metiam a mão no fogo», fosse assim leviana e fácil, como as outras?...

E Amâncio saboreava esta convicção, porque, a despeito do que dissera aos amigos no Hotel dos Príncipes, sua consciência, por conta própria, tomara sempre a defesa de Hortênsia e insistia em mostrá-la cercada de um grande prestígio venerando e respeitável.

-A consciência agora que falasse!

E refocilava-se todo com o seu triunfo. -Agora é que ele queria saber quem tinha razão; sim, porque, enquanto procurava convencer-se de que devia esperar de Hortênsia aquilo mesmo, a rezingueira da consciência saltava-lhe em cima com um nunca terminar de razões e apresentava-lhe a «excelente senhora» cada vez mais pura e menos acessível! E eis que, de supetão, quando menos se esperava, erguiam-se os fatos brutalmente para desmentir uma impostura.

E ele sorria, vendo as asas do anjo baquearem a seus pés, murchas e retraídas, como os galhos de uma árvore arrancados pelo nordeste.

-Bem dizia Simões: «Quando te começarem as aventuras...» E melhor ainda Dr. Freitas: «Para conquistar as mulheres são apenas quatro coisas necessárias: audácia, boas relações, um pouco de inteligência e não ser seu marido!»

E os fatos, como disciplinados por estas palavras, formavam ala e começavam a cantar as vitórias do estudante. Na sua lógica indiscutível afirmavam eles que Hortênsia, o tal modelo de severidade e pureza, morria de amores por Amâncio, que o desejava ardentemente, que se entregaria na primeira ocasião, fazendo loucuras, dando escândalos, que nem uma heroína de romance!

-Está segura! exclamou o rapaz, sacudido por estas idéias. O sangue saltava-lhe no corpo; aquela aventura se lhe afigurava a melhor de sua vida; seu orgulho pueril, de namorador vulgar, espinoteava qual potro que se pilha às soltas no prado verdejante e proibido. As outras conquistas vinham logo chamadas por aquelas, e todas as vítimas de sua sensibilidade, ou as cúmplices do seu temperamento e da sua má educação, enfileiravam-se defronte dele, como um submisso batalhão de prisioneiros.

Chegou a casa ao amanhecer e não dormiu logo. Os pensamentos revoavam-lhe no cérebro com o frenesi de folhas secas, redemoinhadas pelo vento.




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- X -

Dormiu mal; os sonhos não o deixaram em paz.

A princípio, todavia, foram agradáveis: ternos episódios de amores fáceis que se encadeavam confusamente, e nos quais as sensações vinham e fugiam de um modo incerto e deleitoso; depois os sonhos maus, os pesadelos.

Nestes, as mulheres entravam por incidente, sempre duvidosas; vultos sinistros, de cabelos desgrenhados, rosto lívidos, surgiam em torno dele e iam-se aproximando, até lhe ficarem cara à cara, num contato frio e incômodo de carne morta. Depois sonhava-se em casa da família, voltando, porém, justamente do baile de Melo: tinha muita necessidade de repouso, queria continuar a dormir, mas a voz ríspida do pai berrava por ele da porta do quarto: «Anda daí, mandrião! Basta de cama! Vê se queres que eu te vá buscar!» E aquela voz terrível dava-lhe a todo o corpo tremor de medo, e, ao estrondo que ela fazia, vultos cor-de-rosa, e cabelos louros, fugiam espavoridos, como as rãs que se atiram na água, assustadas pelas presença de um boi.

Amâncio queria também fugir, mas suas pernas pareciam troncos de árvores seguros ao chão; queria gritar, mas a língua inchava-lhe na boca.

Acordou muito fatigado e aborrecido às duas horas da tarde.

Logo que apareceu na sala de jantar, Mme. Brizard fez-lhe entrega de um belo ramilhete, que lhe haviam remetido, a ele, com um cartão. Amâncio apressou-se a ler. O escrito dizia simplesmente: «Ao Dr. Amâncio de Vasconcelos -uma sua amiga.»

Cruzaram-se os penetrantes risos adequados ao fato. O rapaz, intimamente lisonjeado, fingiu não se impressionar com aquela manifestação; leu, porém, o bilhete mais duas, três, quatro vezes.

Era letra de mulher, de Hortênsia sem dúvida. Estava ali a sua alma, o fogo de seus olhos. Ele cheirou o pequeno pedaço de papel, e pensou sentir o mesmo perfume que, na véspera, durante a valsa, o tinha penetrado até à medula.

Achavam-se presentes Dr. Tavares, Pereira, o gentleman e Lúcia. Disseram alguma coisa sobre aquelas flores, menos a última, que, junto à janela, parecia preocupada com um livro de capa roxa. O gentleman falou de botânica a propósito de uma dália vermelha que havia no ramo. Afiançou que esta flor possuía em si tantas flores quantas eram as pétalas de que constava.

-Flores perfeitas, com todos os órgãos, Sr. Amâncio -estames, cálice, tudo!

Amâncio, enquanto Lambertosa discorria sobre a dália, leu ainda uma vez o cartão, e, ao levantar a vista, reparou que Nini o fixava, cada vez mais insistente.

Amélia dera-se por incomodada e não veio à mesa.

O jantar correu, pois, muito frio e constrangido a princípio; pouco se conversava e quase ninguém tinha vontade de rir. Dir-se-ia que Amâncio a todos comunicava o seu fastio e o seu cansaço.

Só pela sobremesa Dr. Tavares narrou, como de costume, algumas anedotas jurídicas que presenciara na província. Uma delas tinha referência a uma certa velha que fora aos tribunais por haver desancado as costelas do genro.

Mme. Brizard tomou a defesa das sogras, e aproveitou a ocasião para falar no marido de sua filha mais velha.

-Vai muito da educação e também um pouco do costume em que a gente os põe!... acrescentou ela autoritariamente. -Mas, genro, não queria que houvesse outro como o defunto marido de Nini. -Era um perfeito cavalheiro! Mme. Brizard nunca lhe vira a cara fechada, nem lhe surpreendera um gesto mais arrevesado. Ele só a chamava, a ela, de «mãezinha»; sempre lhe trazia guloseimas da rua, e, aos domingos, pela manhã, dava-lhe um beijo na testa, impreterivelmente! -Ah! Era uma santa criatura!

Nini suspirou e pôs-se a chorar em silêncio.

-Agora temos choro!... pensou Amâncio com tédio.

Nini, como se adivinhara tal pensamento, olhou para ele e pediu perdão com um sorriso, ainda mais triste que o choro.

-Eu sou aqui da opinião do Sr. Amâncio de Vasconcelos... disse o gentleman a Mme. Brizard, em tom discreto.

Mme. Brizard não sabia, porém, do que tratava Lambertosa.

-Ah! volveu este. -Refiro-me ao que avançou anteontem o nosso ilustre companheiro, e indicou Amâncio com um gesto -que avançou a respeito da vantagem que um novo casamento traria, sem dúvida, à senhora sua filha.

-Ah! fez Mme. Brizard -já não me lembrava disso. O Sr...

-Lambertosa, minha senhora. Lambertosa...

-Sr. Lambertosa é então de opinião que o casamento convém às enfermidades nervosas?...

O gentleman concentrou a fisionomia, limpou o bigode ao guardanapo, ergueu uma faca, e principiou a emitir o seu judicioso e meditado parecer.

Surgiram logo as contendas. Lúcia marcou a página do livro de capa roxa e olhou muito séria para os outros, pronta a dar a sua réplica. Mme. Brizard, enquanto os mais discutiam, tamborilava com os dedos sobre a mesa, a fitar um queijo de Minas, com um gesto profundo e repassado de filosofismo. Pereira comia consecutivos pedaços de pão, sem abrir os olhos, e Amâncio procurava uma evasiva para se escafeder.

Afinal, Coqueiro, que havia já formado um grupo à parte com Dr. Tavares, quis fechar a discussão; mas o advogado ergueu-se de súbito, segurou as costas da cadeira, arregalou os olhos, e desencadeou a sua eloqüência.

Em pouco, só ele falava, esquecido, como de costume, do lugar e da situação. Imaginava-se já num tribunal, em pleno exercício de suas funções.

Pintou floreadamente o lamentável estado de Nini. Qualificou-a de «vítima inocente dos impenetráveis caprichos de Deus»; descreveu a dolorosa expressão do semblante da «infeliz moça»; disse que os olhos dela falavam a misteriosa linguagem do amor, e, quando se dispunha a dar afinal a sua esperada opinião sobre o casamento, a pobre enferma, muito vendida com o que vociferava o tagarela a seu respeito, abriu a soluçar estrepitosamente.

A francesa ergueu-se, de mau humor, para pedir ao Dr. Tavares que se deixasse daquilo «por amor de Deus!». Doutro lado Coqueiro também lhe suplicava que se calasse.

Mas o demônio do homem já não se podia conter. As palavras borbotavam-lhe da língua, como o sangue de uma facada. Fez imagens poéticas sobre o casamento, citou nomes históricos, e jurou, à fé de suas convicções «que aquela desventurada criatura precisava de um esposo, mais do que as flores carecem do orvalho; mais do que as aves carecem do ar; mas do que os cérebros carecem de luz!»

E, erguendo as mãos trêmulas, recuou dois passos e foi dar de encontro ao copeiro que, por detrás dele, embasbacado, o escutava atentamente, com a bandeja do café nos braços, à espera de uma ocasião para apresentar as xícaras.

Mme. Brizard assustou-se, o gentleman deu um salto para não sujar as calças; rolou ao chão uma garrafa, e César, o menino sublime, vendo que os mais velhos faziam tanta bulha, também se pôs a berrar.

Coqueiro gritava que se acomodassem por piedade.

-Aquilo não tinha jeito! Parecia haver ali uma súcia de doidos! Oh!

A mucama acudiu da cozinha, e Amélia, com um lenço amarrado na cabeça, apareceu na porta de seu quarto, muito intrigada com o motim. Só Pereira continuava, inalteravelmente, a comer pedaços de pão; é verdade que abriu os olhos duas vezes, mas tornou logo a fechá-los e, segundo todas as probabilidades, adormeceu.

Amâncio tratou de aproveitar a confusão para fugir da varanda.

-Que espécie de gente esquisita!... dizia ele a caminho do quarto. -Nada! Aqui ainda estou pior do que na casa do Campos!

Antes de chegar ao gabinete, percebeu que alguém o seguia com dificuldade. A sala de visitas estava já totalmente às escuras. Voltou-se, e, sem ter tempo de dizer palavra, sentiu cair sobre ele um corpo gordo e mole.

Era Nini.

Amâncio, surpreso e contrariado, quis arredá-la, mas a histérica passou-lhe os braços em volta do pescoço e desatou a chorar, com o rosto escondido no seu colo.

-Hein?! disse Amâncio. -Que história é esta?!

Mas lembrou-se logo das recomendações de Mme. Brizard: «Qualquer contrariedade poderia provocar à infeliz rapariga uma crise perigosa!»

-Ora esta!... pensou ele aborrecido. -Ora esta!...

E procurou afastar Nini, brandamente. E, como a teimosa não quisesse obedecer e continuasse a chorar, ele disse-lhe palavras amigas, pediu-lhe, quase com ternura, que voltasse à varanda; lembrou que não era prudente ficarem ali, sozinhos e no escuro. -Podiam ser surpreendidos! Esta idéia o aterrava mais pelo ridículo do que pela responsabilidade daquela situação.

Nini entretanto, parecia não ouvir coisa alguma e continuava a abraçá-lo freneticamente, com ímpetos nervosos.

Amâncio perdeu de todo a paciência e arrancou-se violentamente dos braços dela.

-Deixe-me! gritou, e correu para o quarto.

Nini acompanhou-o chorando, e conseguiu agarrá-lo de novo, pelo paletó.

Estava muito nervosa e dispunha agora de uma força extraordinária.

-Isto não será um inferno?! exclamou o rapaz, puxando a roupa das mãos de Nini. E, vendo que ela não o largava: -Solte-me, com a breca! Ora essa! Que diabo quer a senhora de mim?! Solte-me! Arre!

A enferma não fez caso e apertou-lhe os pulsos; seus dedos pareciam tenazes. Amâncio debatia-se brutalmente, ouvindo-a bufar, muito agoniada, e sentindo-lhe de vez em quando o suor frio do pescoço e do rosto.

Na sala de jantar serenara a discussão; só a voz de Tavares ainda se destacava. De repente puseram-se todos a chamar por Nini.

-Olhe disse-lhe Amâncio. -Lá dentro a estão chamando! Vá! Vá!

Ela, nem assim.

-Ora pílulas! resmungou o estudante, desprendendo-se com um empurrão. E ganhou o quarto, puxando a porta sobre si.

Ouviu-se então o baque surdo do corpo pesado de Nini, que foi por terra; em seguida gritos muito agudos.

Correram todos para a sala de visitas; acenderam-se os candeeiros. Nini escabujava no chão, a gritar, esfrangalhando as roupas e mordendo os punhos.

Coqueiro e Mme. Brizard apoderaram-se logo da infeliz. Amâncio apareceu com um frasquinho de vinagre; Lambertosa receitou uma dose homeopática e correu ao quarto em busca da botica (a homeopatia era uma de suas paixões); Lúcia voltou para a varanda. «Que a desculpassem, mas não podia assistir, a sangue frio, a cenas daquela ordem... Não estava mais em suas mãos!»

***

Pereira já se havia levantado da mesa e ressonava na costumada preguiçosa.

Lúcia, ao passar por ele, atirou-lhe um olhar de tédio e disse consigo:

-Olha que estafermo!...

Ela às vezes tomava-lhe grande nojo, não o podia ver com aquele ar mole, de mulher grávida, com aquelas pálpebras descaídas, a comerem-lhe os olhos, com aquele sorriso apalermado, aquela voz derramada pelos cantos da boca, que nem um caldo frio e seboso.

De quando em quando sofria de insônias, e, justamente nessas ocasiões, nas horas compridas da noite em claro, é que mais detestava Pereira. Punha-se a contemplá-lo longamente, com asco, fartando-se de olhar para aquele «pamonha», aquele «coisa inútil», que ali ao seu lado, dormia todo encolhido, com as mãos entre as coxas. Vinham-lhe frenesis de enchê-lo de pescoções. Já lhe não podia suportar o cheiro doentio do corpo; não lhe podia sentir a umidade pegajosa do suor e a morna fedentina do hálito.

A sua ligação àquele mono era uma história muito triste e muito sensaborona. Poucos, bem poucos a sabiam, porque Lúcia se esforçava quanto lhe era possível por escondê-la, como quem esconde uma chaga vergonhosa.

Ela, «a mísera senhora», vinha, entretanto, de gente honesta e bem conceituada, se bem que muito pouco escrupulosa em pontos de educação. Deram-lhe professores de francês, de música, de desenho; entregaram-lhe enfiadas de romances banais e livros de maus versos; e, todavia, não lhe deram moral, nem trataram de lhe formar o caráter. A desgraçada percorreu bailes desde pequena; ouviu o primeiro galanteio aos dez anos de idade; teve a primeira paixão aos doze; aos quinze julgava-se desiludida e sonhava com o túmulo; aos vinte, como é natural, sucumbiu ao palavreado de um primo em segundo grau e bacharel pelo Pedro II.

O primo, assim que a viu pejada, azulou para o Rio Grande do Sul, onde tinha a família, e nunca mais lhe deu sinal de si.

Foi então que surgiu em Lúcia a idéia de utilizar-se de Pereira. Entre as pessoas que freqüentavam a casa de seus pais, era ele o único aproveitável para casamento. Nesse tempo vivia o dorminhoco às sopas de um tio suspeito de riqueza aferrolhada, e de quem mais tarde, diziam, havia de herdar o dinheiro. Lúcia meteu as mãos à obra, mas, por pouco que não desanimou; Pereira não dava de si coisa alguma, parecia não compreender as provocações. Era quase impossível tirar algum partido daquele animalejo! Ela, porém, não se quis dar como vencida, e lutou.

Lutou, empregando os meios mais ardilosos para injetar nos nervos daquele sonâmbulo uma faísca magnética de amor. Trabalho inútil! Afinal, vendo que o pedaço de asno era incapaz de qualquer ação ou reação, tomou ela a parte agressiva; e a coisa resolveu-se no mesmo instante.

Depois, como não havia tempo a perder e porque já conhecia bem a pachorra do seu homem, foi pessoalmente ao encontro dele, meteu-se-lhe em casa e protestou que faria um escândalo dos diabos, se o «sedutor» não tratasse, quanto antes, de tomar uma resolução muito séria a respeito de casamento.

Pereira não tratou de tomar coisa alguma desta vida e nem se abalou com a presença de Lúcia. Aceitou-a, como aceitaria outra qualquer imposição, porque ele era dos tais que, às maçadas da cura, preferem os incômodos da moléstia. Só no fim de quatro dias de lua-de-mel, como Lúcia insistisse nas suas idéias matrimoniais, o pachorrento declarou, com toda a calma, que não lhe podia fazer a vontade nesse ponto, em virtude de que, desde aos dezoito anos, o haviam casado com uma velha, uma fúria, que Pereira não sabia, nem queria saber, por onde andava.

Lúcia perdeu os sentidos; esteve à morte. Os pais, envergonhados com o procedimento indigno da filha, tinham-se ido refugiar na cidade de Campos. Foi o tio de Pereira, o tal das riquezas aferrolhadas, quem a salvou; era um velho ainda bem forte e muito mais esperto que o sobrinho. Deu-lhe casa, comida, roupa e dinheiro.

Uma irmã dele, senhora de inveterado amor a crianças, solteirona, de quarenta a cinqüenta anos e que, com o olho no testamento, desejava a todo o transe ser agradável ao mano, encarregou-se do filho do bacharel.

Correram quatro anos. Lúcia não viu mais a família; apenas visitava o filho, de quando em quando.

Pereira continuava às sopas do tio, indiferentemente, como se tudo aquilo não lhe dissesse respeito. Acordava, quer dizer, levantava-se às dez horas, tomava no quarto o seu banho morno, depois um copo de leite fervido, almoçava às onze, fazia a digestão estendido no sofá da sala; às duas horas dormia, depois passeava pela chácara à espera do jantar, cujo quilo era de rigor ser feito a sono solto em uma rede que ele tinha no quarto.

À noite, quando conseguia levantar-se jogava o gamão com o tio. Cochilavam ambos, até que se servia o chá, e cada um se retirava para a cama.

-A noite fez-se para dormir! Sentenciava um deles.

-E o dia para se descansar, resmungava o outro espreguiçando-se.

E recolhiam-se.

O velho morreu de repente; uma congestão que lhe sobreveio ao encontrar Lúcia no fundo do jardim às voltas com um estudante da vizinhança.

-Bom! dissera Lúcia, alijada afinal daquela obrigação que já lhe ia pesando demais. E fariscou o testamento. Mas o velhaco apenas deixava algumas dívidas à praça e dois terrenos hipotecados ao Banco Predial. A coisa única que ela aproveitou foi Cora, mulatinha de criação, cuja matrícula e cuja escritura de compra estavam em seu nome.

Era preciso, pois, deixar a casa; os credores reclamavam tudo que pudesse dar dinheiro. Pereira sacudia os ombros; dir-se-ia que não houvera a menor alteração na sua vida. Continuava a dormir tranqüilamente, como se as sopas do tio ainda o fossem procurar às horas da refeição.

Lúcia compreendeu que não devia contar com ele, e tratou em pessoa um cômodo para os dois, num hotel de arrabalde. Sentia-se resoluta e forte: era ela agora o cabeça do casal; tinha belos projetos de trabalho: daria lições de piano, de desenho e de francês, até que aparecesse um homem para substituir o estafermo do Pereira.

O homem, porém, não aparecia, como não apareciam os discípulos.

Principiou então para eles um viver perfeitamente de boêmios. Sem trastes, nem dinheiro, nem futuro, nem relações constituídas, andavam aquelas duas almas perdidas e mais a Cora, que adorava a senhora, a percorrer as casas de pensão: sempre sobressaltados, sempre perseguidos pelos credores que iam deixando atrás de si.

Em cada lugar se demoravam o maior tempo que podiam, dois, três, quanto muito quatro meses; até que lhe suspendiam o crédito e os dois levantavam, novamente o vôo, deixando a dívida em aberto e o dono da casa lívido, colérico, sem saber ao menos que direção tomavam os vagabundos.

Nesse peregrinar, Lúcia teve uma contrariedade mais profunda -achou-se grávida de novo. Cora deu-lhe conselho, trouxe-lhe remédios para fazer abortar; nada entretanto, produziu efeito. O demônio da criança parecia disputar o seu quinhão de vida com uma persistência desesperadora.

Nasceu afinal, no quarto de um português na Fábrica das Chitas, entre os cuidados mercenários do locandeiro e o obséquio de alguns amigos, que Lúcia fora conquistando com as simpatias de seu talento musical.

O diabinho pouco durou, felizmente. Desapareceu uns trinta dias depois de ter vindo ao mundo. Morreu mesmo na rua, quando os pais, dentro de um carro de aluguel, fugiam aflitos da Fábrica das Chitas para uma casa de pensão na Rua do Catete.

Cora encarregou-se de atirá-lo ao mar. Ninguém viu. Seriam duas horas da madrugada e as brisas marinhas pulverizavam no ar um chuvisco miúdo, de fevereiro.

O menino fora muito franzino e muito mole; saíra o pai, Pereira. Durante o seu pobre mês de vida só abriu os olhos uma vez, ao expirar.

A casa de pensão do Coqueiro era a sexta que Lúcia percorria com o suposto marido. Apresentavam-se sempre como casados; ele muito tranqüilo de sua vida, feliz; ela inquieta, sôfrega pelo tal sujeito, que com tanto empenho procurava.

Quando constou a Lúcia que Amâncio era rico e atoleimado, uma nova esperança radiou-lhe no coração.

-É agora!... disse.

***

E preparou-se para o combate.

Foi por isso que o estudante recebeu, no dia seguinte ao baile do Melo, aquele ramilhete, tão falsamente atribuído a Hortênsia, e porque, uma semana depois outro ramo, bastante parecido com o primeiro, se achava às onze horas da noite no quarto do rapaz, sobre a cômoda.

-Olé! disse ele.

E, satisfeito com a intriga, principiou a fazer conjeturas.

-De quem viriam aquelas flores!... Ah! exclamou, descobrindo um bilhetinho, escondido entre duas rosas.

E leu:

Não saibam nunca espíritos indiferentes, nem mesmo tu, adorado fantasista, quem te envia estas pobres flores. Não o procures descobrir; deixa que o meu segredo viceje e cresça na tepidez do mistério, à semelhança das plantas melancólicas que reverdecem nas sombras ignoradas dos rochedos. «Eu te amo!»

-Seria de Amélia, seria de Lúcia, ou seria de Hortênsia?... De Nini é que não podia ser, porque a desgraçada, com certeza, não sabia escrever coisas daquela ordem!

Não dormiu essa noite; as palavras de ramilhete voejavam-lhe dentro da cabeça, como um bando de mariposas.

-De quem seria?... De Amélia não, não era de se supor; pois que a bonita menina, longe de o provocar, fugia sempre que ele por qualquer modo tentava abrir-se com ela em questões de amor; de Hortênsia também não, não era natural que fosse, porque, em tal caso, Mme. Brizard, ou qualquer outra pessoa de casa, teria visto o portador. Além disso, mulher de Campos não seria capaz daquilo; estava caidinha -é certo! mas não levaria a leviandade ao ponto de escrever e enviar-lhe semelhante declaração. O que, porém, não sofria dúvida é que os ramos tinham a mesma procedência.

E Lúcia?... É verdade! E Lúcia? Com certeza não era de outra! Sim tudo estava a dizer que o tal bilhetinho saíra de suas mãos!... aquelas frases poéticas, aquele mistério, aquela franqueza de confessar o seu amor em duas palavras... Não tinha que ver! era da mulher de Pereira!

E um apetite brutal, inadiável, substituiu logo a calma simpatia que lhe inspirara Lúcia.

Desde que se capacitou de que eram dela os ramilhetes, desejou-a com urgência; queria que ela surgisse ali, naquele mesmo instante, na silenciosa escuridão daquele quarto.

E voltava-se de um para outro lado da cama, sem conseguir pegar no sono.

Esperar até o dia seguinte o momento de estar com ela afigurava-se-lhe um sacrifício enorme, quase invencível. Como podia lá descansar, dormir, com semelhante preocupação a remexer-se-lhe por dentro, como um feto doido que lhe mordesse as entranhas?

Definitivamente não conseguia adormecer. Levantou-se, acendeu um cigarro, abriu a janela, e pôs-se a olhar para a lua que estava boa essa noite. Vieram-lhe logo as conjeturas sobre o como seria a situação, no caso que Lúcia aparecesse ali, naquele instante. «Que sucederia?... Que fariam eles?...»

Duas horas bateram na sala de jantar.

-Diabo! resmungou Amâncio, sentindo arrepios por todo o corpo. -Desta forma perco a noite inteira, e amanhã estou impossibilitado de ir à academia!...

A idéia do estudo apresentava-se-lhe sempre com um sabor muito amargo de sacrifício. Lembrou-se, todavia, de aproveitar a insônia para correr uma vista de olhos pela lição; acendeu a vela, corajosamente, assentou-se à mesinha que havia no quarto e abriu um compêndio. Mas não conseguia prestar atenção à leitura; percorreu distraído duas ou três páginas e ficou a olhar a chama trêmula da vela, cada vez mais abstrato e mais febril.

Sentiu vontade de beber. -Se não estava enganado -a garrafa de conhaque ficara sobre o aparador, na varanda.

Ergueu-se, enfiou o sobretudo e saiu da alcova.

O sangue não lhe queria ficar quieto. A continuar daquele modo, o remédio que tinha era pôr-se ao fresco e vagar pelas ruas, até encontrar sossego.

O conhaque não estava no aparador, Amâncio, contrariado, desceu à chácara, e foi assentar-se a um banco de pedra. -Naquele momento comeria alguma coisa, se houvesse, pensou ele, resolvido a organizar no dia seguinte um bufê no seu próprio quarto.

A lua escondia-se agora entre nuvens; as árvores rumorejavam; tudo parecia concentrado e adormecido.

Debaixo viam-se as janelas dos quatro cômodos do segundo andar, que davam para a chácara. Lá estava o n.os 8, 9, 10 e 11. Começou a pensar nos hóspedes daqueles quartos: o 11 era do tal Correa, o médico que só aparecia ali de quando em quando, «para fazer uns trabalhos que os filhos não lhe permitiam em casa da família»; o 10 era do gentleman -Bom maçante! Amâncio lembrou-se de que lhe prometera acompanhá-lo uma noite qualquer ao Passeio Público. -Havia de ir, disseram-lhe que às vezes se encontravam aí boas coisas!...

O 9 é que ele não se lembrava a quem pertencia... Ah! era do tal Melinho, «a pérola», como o qualificava João Coqueiro constantemente.

E o 8 de Lúcia! da misteriosa Lúcia!

Ela estava ali!... fazendo o quê... pensando nele talvez... talvez dormindo... talvez até nem dela fosse o bilhetinho amoroso e os dois ramilhetes!... Quem, sabia lá!...

E esta dúvida o apoquentava.

-Ora adeus! disse. -A ocasião havia de chegar!...

Veio-lhe, porém, uma tentação aguda de subir ao n.º 8.

-Que mal podia vir daí?... O marido com certeza estava dormindo!... Que poderia acontecer?...

Levantou-se resolvido; mas as vidraças do quarto do tal médico, que só aparecia de quando em quando, acabavam de iluminar-se.

-Olá!... considerou Amâncio, detendo-se. É o n.º 11?

Por detrás dos vidros havia cortinas de cassa; nada se podia ver para dentro, apenas duas sombras difusas projetavam-se na cambraia, ora aumentando, ora diminuindo. Amâncio deixou-se ficar onde estava, mordido já de curiosidade.

Daí a uns dez minutos, pela escadinha do fundo, desciam cautelosamente, um sujeito alto, todo de escuro e mais uma mulher gorda, de enorme chapéu, cujas abas lhe caíam sobre os olhos, ensombrando-lhe o rosto.

Vinha um atrás do outro, porque a escada era estreita. Atravessaram a chácara, falando em voz baixa, e entraram no corredor.

Amâncio acompanhou-os, de longe, e tripetrepe.

A porta da rua estava aberta, como de costume; um carro esperava pelos dois lá fora; o cocheiro dormia na boléia. O sujeito do n.º 11 deu a mão à mulher das grandes abas, ajudou-a a entrar na carruagem e, em seguida entrou também. O cocheiro fechou sobre eles a portinhola, sem lhes dar palavra, depois saltou para o seu posto e tocou os animais.

-E que tal?... interrogou Amâncio de si para si, quando os viu partir.

Lembrou-se então do que lhe dissera o velhaco de Coqueiro por ocasião de mostrar-lhe a casa: «Quanto a certas visitas... isso tem paciência... lá fora o que quiseres, mas, daquela porta para dentro...»

-Hipócritas! pluralizou o estudante.

***

E encaminhou-se para o segundo andar.

Subiu pela escadinha do fundo, não a do médico, mas pela outra do lado oposto; porque havia duas.

O primeiro andar continuava em completo silêncio; no segundo apenas se ouvia, de espaço a espaço, um tossir seco e agoniado, que vinha naturalmente do n.º 7, onde morava o tal moço doente. O pobre diabo piorava à falta absoluta de meios.

Amâncio entrou às apalpadelas no corredor que dividia os oito quartos. O luar filtrava-se a custo pelas venezianas e pelas vidraças da janela e sarapintava o chão de pequeninos pontos brancos.

O n.º 5, onde residia Paula Mendes com a mulher, era o único que tinha luz; uma forte claridade rebentava por cima da porta fechada e ia projetar-se na parede do n.º 10 que lhe ficava fronteiro. Mas ainda assim o corredor estava bem escuro.

Amâncio parou defronte do n.º 8. -Era ali!

Encostou o ouvido à fechadura; nem sinal de vida. -Lúcia com certeza dormia profundamente.

-Dormia! pensou o estudante. -Dormia, sem preocupações nem cuidados; ao passo que ele, por não encontrar descanso, errava pelos corredores desertos, como uma alma penada! -Para que então se lembrara aquela mulher de ir mexer com ele?!... Se a sua intenção era dormir, para que o foi provocar? para que lhe foi bulir com o sangue? Oh! aquele silêncio do n.º 8 o irritava! Aquela indiferença afigurava-se-lhe uma afronta ao seu amor próprio, um atentado contra o seu orgulho!

E, quando mais se convencia da impossibilidade de falar essa noite a Lúcia, mais e mais os seus sentidos se assanhavam! Afinal, já não fazia grande questão de ser com ela própria; aceitaria qualquer outra que o arrancasse daquela ansiedade em que se via entalado, como se estivesse dentro de uma armadura em brasa.

-Que inferno! dizia ele consigo, rangendo os dentes. -Que inferno!

E, sem ânimo de ir embora, permanecia encostado à porta do n.º 8, deixando-se comer aos bocadinhos pela febre do seu desejo; ao passo que o corpo inteiro lhe arfava com o resfolegar aflitivo dos pulmões.

-Todavia, pensou ele -quantas mulheres não o desejariam ter junto de si naquele momento?... Donzelas até, quantas, naquele instante, não se estorceriam no leito e não morderiam os travesseiros, desvairadas pelo isolamento?

E saborosas lembranças de amores extintos, que o tempo e a ausência tornavam mais perfeitos e mais desejáveis, acudiam-lhe simultaneamente ao espírito, para lhe aumentar as torturas da carne. As suas amantes do passado eram agora ainda mais atraentes e formosas; em todas elas não havia um lábio sem sorriso, um olhar sem fogo, era tudo opulento de graça e de meiguice, era tudo encantador e completo.

Pôs-se a arranhar devagarinho a porta, dizendo quase em segredo o nome de Lúcia. Nada, porém, respondia; o mesmo silêncio compacto enchia as trevas do corredor.

Seu desejo, estimulado e tonto, evocava então todos os meios de saciar-se; descobria hipóteses absurdas, inventava possibilidades que não existiam. Amâncio chegou a pensar em Amélia, em Mme. Brizard, na macuma, e até, que horror! em Nini!

-Ai, meu Deus! gemeu nesse instante o doente do n.º 7.

O estudante deixou a porta de Lúcia e seguiu em ponta de pé pelo corredor. Ao passar defronte do quarto de Paula Mendes, suspendeu o passo; a luz continuava com a mesma intensidade; o curioso não resistiu a uma tentação e espiou pela fechadura.

O pobre homem trabalhava, vergado sobre uma mesinha estreita e toda coberta de papéis de música. Ao lado, pelas cadeiras e sobre um sofá de couro negro encostado a um biombo, havia folhas esparsas e cadernetas empilhadas.

Recebera nessa tarde a encomenda de organizar uma sinfonia, que tinha de ser executada daí a quatro dias em uma festa fora da cidade. O Imperador prometeu que iria.

Mendes estava ainda organizando as partes cavadas. Ouvia-se o ranger da pena no papel grosso de Holanda, o tique-taque de um despertador de metal branco, pousado sobre a cômoda, e o grosso ressonar da mulher, que dormia por detrás do biombo. O rabequista parecia menos triste aquela ocasião do que nas outras em que o vira Amâncio.

-É porque a mulher está dormindo, calculou este, lembrando-se do mau gênio de Catarina. E considerou sobre a existência ordinária que levariam ali, encurraladas no mesmo cubículo, aquelas criaturas tão opostas.

Mendes, sem desprender a pena do papel, começou a solfejar em voz baixa o que escrevia; mas, como lá dentro cessassem os roncos da mulher e esta se remexesse na cama, resmungando, ele incontinente, calou a boca e prosseguiu em silêncio no seu trabalho.

-Ainda estás com isso?! perguntou ela, afinal, depois de uma pausa.

O marido respondeu afirmativamente.

-Pois, homem, vê se acabas com essa porcaria! Bem sabes que, enquanto houver luz no quarto, não posso pregar o olho!

E, fazendo ranger as tábuas da cama, virou-se de um lado para outro, acrescentando com a sua voz de homem:

-Deixa isso! Anda! E apaga o diabo dessa luz!

-Não, filha, respondeu o artista brandamente. -É preciso que este serviço fique pronto amanhã...

E depois de um muxoxo da mulher:

-Sabes o quanto precisamos deste dinheiro... A diretora do colégio ainda ontem protestou que despediria a pequena, se eu não lhe arranjasse alguma coisa por conta do que devemos; Joãozinho, coitado, há quase dois meses pediu-me que lhe levasse um sobretudo, porque lá no trapiche onde ele agora está trabalhando, faz pela manhã um frio de rachar; Mme. Brizard, você não ignora, tem-nos apoquentado e...

-É isto! interrompeu a mulher. -É sempre a mesma cantiga! -De tudo você se lembra, menos do que eu preciso!

-Ah! se me lembro, filha! mas é que nem sempre a gente pode fazer o que deseja... Descansa, porém, que as coisas hão de endireitar e tu possuirás de novo o teu piano de cauda! Tem um pouco de paciência...

-Já me tardava essa música! Já me tardava a «paciência»! A paciência inventou-se para consolar os tolos! Farte-se você com ela! De conselhos estou cheia, meu amigo! Quero obras e não palavras!

Mendes não respondeu e continuou a trabalhar, meneando a cabeça resignadamente. Catarina remexeu-se com mais agitação e rangidos de cama, e, daí a pouco levantou-se de um salto, gritando:

-Arre, com os diabos! que nem se pode dormir!

-Olha os vizinhos, filha!... arriscou o marido. -Lembra-te de que são três horas da madrugada...

-Os vizinhos que se fomentem! Berrou ela, embrulhando-se na colcha e fazendo tremer o soalho com seus passos de granadeiro. -Não como em casa deles, não preciso deles para nada!

E, depois de ir beber um copo d'água ao fundo do quarto:

-Tinha graça! que eu, além de tudo, não pudesse falar à minha vontade! Melhor seria, nesse caso, que me amarrassem uma bala aos pés e mandassem atirar comigo ao mar!

-Estás de mau humor, filha! Vê se descansas.

-Não é de espantar, levando a vida que eu levo! sempre numas porcarias de quartos! Se precisa de qualquer coisa, é um «ai Jesus!». Nunca há dinheiro! O almoço é aquilo que se sabe; o jantar pior um pouco! Se fico doente, se tenho uma debilidade, não há quem me traga um caldo! não há quem me dê um remédio! Arrenego de tal vida, diabo!

-Ó Catarina!... disse Mendes ressentindo-se. -Pois eu não estou aqui?... Algum dia já me afastei de teu lado, ao te sentires incomodada?

-E antes que se afastasse, creia! porque já me custa suportá-lo quando estou de saúde, quanto mais doente. Casca! -atirar-me em rosto uns miseráveis serviços que qualquer uma faria!... Pois não os faça, que até é favor! Passo muito melhor sem eles!

-Está bom, senhora, está bom! Não precisa arreliar-se! Veja se descansa, que eu agora tenho que fazer!

-Descansada queria você me ver, mas era no Caju, por uma vez, seu malvado! Pensa que encontraria o demônio de alguma tola que caísse na asneira em que eu caí de amarrar-se a um homem de sua laia? Um pingas! que anda sempre com sela na barriga!

E avançando para o marido de olhos arregalados e um punho no ar:

-Mas, podes perder as esperanças, que eu não morro, antes de ti, Mané Bocó! Primeiro hás de ir tu, entendes? -Ah! Supunhas que eu levaria a roer uma vida de chifre e depois rebentava por aí, enquanto ficavas por cá a te lamberes de contente! -Um sebo! Hei de ir, sim, as depois de te haver feito amargar também um bocado, meu burro velho!

-Ó mulher! cala essa boca do diabo! gritou, afinal, Mendes, arrojando a pena e empurrando os papéis que tinha defronte de si. -Arre! É muito! Arre!

O moço doente do n.º 7 expectorou com mais força e pôs-se a gemer.

-Ora, com um milhão de demônios! gritou o guarda-livros, que morava no n.º 6. -Não é possível sossegar neste inferno! Quando não é a tosse e o gemido da direita, é a resinga e a briga da esquerda! Apre! Antes morar num hospital de doidos.

Mendes levantou-se, segurando a cabeça com ambas as mãos, e começou a passear agitado pelo quarto.

Catarina continuava a sarrazinar, atirando com os pés o que topava no meio da casa. O marido parou de súbito, sacudiu a cabeça, depois foi-se chegando para a mulher e correu-lhe a mão pela espádua nua e lustrosa, timidamente, como se afagasse a anca de uma égua bravia.

-Então, filha?... disse com ternura. -Vai deitar, vai!... Estamos aqui a incomodar os outros... Anda vai!

-Os incomodados são os que se mudam! gritou ela.

-E é o que vou tratar de fazer amanhã mesmo! berrou o guarda-livros. -Estou farto! Quem trabalha durante o dia, precisa da noite para descansar! Arre!

-Não faça caso, senhor!... disse Mendes, e encaminhou-se para a porta.

Amâncio, assim que o sentiu aproximar-se, fugiu pé ante pé, com ligeireza.

Nesse momento, Campelo, o tal esquisitão do n.º 4, que até aí não dera sinal de si, levantou-se tranqüilamente, tomou o seu clarinete, e começou por acinte, a tirar do instrumento as notas mais estranhas e atormentadoras que se podem imaginar. O guarda-livros respondeu-lhe batendo com a bengala nas paredes de tabique e berrando, como um doido, o Zé Pereira.

-Ai, meu Deus! ai, meu Deus! continuava a gemer arrastadamente o pobre sujeito do n.º 7.

Já pelas escadas, Amâncio ouviu as vozes do gentleman, do Melinho e de Lúcia, que acordaram espantados, e aos gritos reclamavam contra semelhante abuso.

No andar de baixo, Piloto, Dr. Tavares, Fontes e a mulher, abriam as portas dos competentes quartos para indagar que diabo queria aquilo dizer. Só o dorminhoco do Pereira não se deu por achado.

Amâncio já estava entre os lençóis, quando Coqueiro percorreu toda a casa, de robe de chambre e um castiçal na mão.




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- XI -

O guarda-livros, no dia seguinte pela manhã declarou a Mme. Brizard que se retirava da casa de pensão.

-Oh! disse. -Não estava disposto a suportar por mais tempo aquele zungú! os seus vizinhos eram uma gente impossível! -Não se passava uma noite em que não houvesse chinfrinada!... Não! definitivamente não podia ficar! De mais -o tísico do n.º 7 não lhe dava um momento de descanso com o diabo de uma tosse, que parecia aumentar todos os dias! Nada! antes tomar um quarto no inferno!

Mme. Brizard e o marido procuravam dissuadi-lo de tal resolução. Não lhes convinha perder um hóspede tão bom.

O guarda-livros, com efeito, era muito pontual nos pagamentos e não incomodava pessoa alguma, porque só queria o quarto para dormir; verdade é que não fazia o gasto de comida, mas em compensação estava sempre a encomendar ceatas e jantares que deixavam bem bom lucro.

A ter por conseguinte, de sair alguém, antes fosse o tal rabequista, o tal Paula Mendes, que, sobre possuir uma mulher insuportável, achava-se já atrasado nas suas contas, e os donos da casa não viam muito certo o recebimento.

Catarina, assim que soube de semelhantes considerações, desceu em três pulos ao primeiro andar e, atravessando-se defronte de Coqueiro, com as mãos nas ilhargas, gritou-lhe, refilando as presas:

-Repita você o que teve o atrevimento de dizer a meu respeito e a respeito de meu marido! Repita aí, se for capaz, que lhe mostro já para o quanto presto, seu cara de fome!

João Coqueiro, muito pálido e com o lábio superior a tremer, exclamou que «sua casa não era Praia do Peixe»; que ele não estava habituado «àqueles banzés»! Quem quisesse dar escândalos que fosse lá para o meio da rua, que se fosse entender com as regateiras!

-Regateiras e regateiros são vocês, corja de gatunos! replicou a outra.

Mme. Brizard, que por essa ocasião, ainda no quarto, enfiava as botinas, acudiu logo, um pé calçado e outro não, e, com tal fúria avançou contra a mulher de Paula Mendes, que Amélia, Coqueiro e Nini não a puderam conter.

As duas atracaram-se.

Os hóspedes, que estavam em casa, acudiram todos igualmente. Houve bordoada, gritos, palavrões. Nini teve um ataque de nervos.

O ilustre Lambertosa levou vários empurrões e caiu contra uma cesta de ovos, que o copeiro acabava de pousar no chão, para socorrer às senhoras.

E, no meio de toda esta desordem, destacava-se a voz sibilante do advogado Tavares.

-Calma, senhores! calma! bradava ele. -Calma por quem sois! Esquecei-vos de que a única arma do homem civilizado deve ser a palavra, escrita ou falada, mas a palavra, a idéia enfim?!... Esquecei-vos de que cada um de vós possui um cérebro, onde reside uma partícula da sabedoria divina, e que só com esse cabedal podeis cruzar as vossas opiniões, sem que seja necessário vos agatanhardes como animais ferozes?!... Virgílio, meus senhores, o imortal Virgílio o verdadeiro fundador da eloqüência, diz muito acertadamente na sua Eneida, livro IV, com referência à desditosa Dido -Rendet que iteram narrantis ab ore! Se podemos, pois, convencer com palavra, para que havemos de recorrer aos murros?!...

E, louco do costumado entusiasmo, dava punhadas frenéticas na mesa e perguntava em torno com os olhos enviesados e as cordoveias intumescidas:

-E o que dizia Salomão?! E o que dizia Salomão, na sua inquebrantável sabedoria?! Salomão, meus senhores...

Mas o orador foi interrompido violentamente por Coqueiro, que desejava saber se ele podia dispensar o seu quarto ao guarda-livros e mudar-se para o n.º 6 do segundo andar.

Haviam combinado essa mudança enquanto o tagarela discursava.

-Salomão! Sr. Dr. Coqueiro, Salomão foi um prodígio!

-Pois bem, já sabemos disso, e agora o que nos convém saber é se V. S. cede ou não cede o seu quarto...

Mas não foi necessário tal assentimento, porque Amâncio, depois de um sinal de Lúcia, declarou que cederia o seu gabinete por qualquer um dos quartos do segundo andar.

Coqueiro espantou-se. -Querer trocar o gabinete por um quarto do segundo andar!... Ora, seu Amâncio!

-Faz-me conta, respondeu secamente o provinciano. E, chegando-se para o locandeiro, acrescentou-lhe ao ouvido: -Logo mais te direi a razão por quê...

Ficou resolvido que o guarda-livros passaria a ocupar o gabinete de Amâncio; este iria para o n.º 6, e Paula Mendes e mais a mulher deixariam de comer à mesa de Mme. Brizard, continuando, porém no n.º 5, até que liquidassem as suas contas.

***

Na tarde desse mesmo dia, como fizesse bom tempo, as senhoras combinaram tomar o café na chácara. Mme. Brizard, Amelinha, Lúcia e Nini, mal acabaram de jantar, desceram ao terraço. Coqueiro e Amâncio já iriam também para o cavaco. -Tinham primeiro que dar dois dedos de conversa.

Os dois rapazes meteram-se no vão de uma janela da sala de visitas, e Amâncio, com acentuações de quem detesta imoralidades, disse ao outro, sem transição:

-Coqueiro, estou aqui há pouco tempo, mas estimo tua família, como se fosse a minha própria, e, pôr conseguinte, entendo que é do meu dever abrir-me contigo sempre que nesta casa descobrir qualquer coisa que possa ter conseqüências graves...

-Mas que há? perguntou o outro a fitá-lo, com muito empenho.

-Trata-se de Nini, disse o provinciano em voz soturna.

Coqueiro remexeu-se no canto da janela.

-Sabes, continuou aquele -que a pobre menina sofre horrivelmente dos nervos, e creio que até que tem qualquer desarranjo na cabeça...

-Sim, por quê?

-É uma enferma, que, se não tivermos muito cuidado com ela, pode vir a dar sérios desgostos a ti e a tua família...

-Mas desembucha, o que é que houve?...

-É que ela, naturalmente em conseqüência da moléstia, coitada, às vezes faz certas coisas que... para mim ou qualquer outro rapaz de bons princípios não valem nada, mas que, se caírem nas mãos de um desalmado... sim! Tu bem sabes que há homens para tudo neste mundo!...

E Amâncio, inflamado pelos princípios morais que ele só cultivava teoricamente, parecia mais que ninguém preocupado com a pureza dos costumes.

-Mas afinal, que fez ela? Perguntou Coqueiro, impacientando-se.

-Ora, disse o colega, desgostosamente -tem feito o diabo... Ainda ontem, quando me levantei da mesa, seguiu-me até à sala e...

-E...

-Principiou a fazer tolices. A pobrezinha estava como não calculas!... Tive que recorrer à violência para contê-la; o resultado foi aquele ataque!...

E vendo o ar de espanto que fazia Coqueiro:

-Digo-te isto, porque me parece que tenho obrigação de te dizer; se, porém, faço mal, desculpa!...

-Mal? ao contrário! decerto que ao contrário! Fico-lhe muito grato!

E abraçando-o:

-Acabas de provar que és homem de bem! A tua ação é de um verdadeiro amigo: não imaginas o quanto eu a aprecio.

-Cumpri com o meu dever... observou o provinciano modestamente.

-Obrigado! muito obrigado! Fico prevenido. De hoje em diante não acontecerá outra!

-E agora, compreendes a razão por que não me convinha ficar embaixo, no gabinete?... concluiu Amâncio.

-Oh!... Isso, porém, não era motivo para que deixasse o seu gabinetezinho... Eu daria as providências necessárias!...

-Não, filho, nestas questões de família sou muito rigoroso. E agora, o que está feito, está feito! Vou para o segundo andar; é até mais fresco!...

E, depois de ainda algumas ligeiras considerações sobre o mesmo assunto, os dois rapazes trocaram comovidos um enérgico aperto de mão e desceram juntos à chácara, onde, debaixo das latadas de maracujá, os esperavam as senhoras, palestrando em familiar camaradagem.

***

Dias depois, quando Amâncio já estava transferido para o n.º 6, do segundo andar, chegaram às mãos duas cartas; uma de sua mãe, outra de seu pai.

Era a primeira vez que o velho Vasconcelos se dirigia ao filho em carta especial.

Abriu logo a de Ângela, sofregadamente, e a imagem da santa, que as últimas agitações da vida do rapaz haviam nublado por instantes, como nuvens que escondem uma estrela guiadora, mal começou a leitura, ressurgiu inteira e lúcida à memória dele.

A boa mãe queixava-se de que o filho, ultimamente, já lhe não escrevia com a mesma assiduidade e com a mesma expansão: «Que significava semelhante mudança? Donde vinha aquela reserva? por que aqueles bilhetes tão apressados, quase telegráficos?»... perguntava ela com a sua letra redonda e um pouco trêmula. «Por que não me escreves mais amiúde e mais extensamente?» insistia a carta, «porque, meu querido filho, não me contas toda a tua vida; não me dizes como passas, e em que te ocupas? Desejo saber se Campos continua a ser teu amigo, se na casa dele continuas tratado como dantes. Quero que me relates tudo, tudo que te diga respeito, meu Amâncio. Se soubesses a falta que tu me fazes, os cuidados que me dá a tua ausência, com certeza serias melhor para tua mãe.»

E, sempre a mesma, sempre extremosa, sempre com o filho na idéia, envia-lhe conselhos, recomendava-lhe certas precauçõeszinhas; as medidas que devia tomar contra tais e tais perigos; o modo pelo qual devia proceder em tais e tais situações.

Amâncio releu várias vezes o que lhe dizia Ângela e respirou largamente como quem sai de um quarto apertado para um grande ar livre. Mas se a carta materna o impressionou a outra surpreendeu porque de tão afável e condescendente não parecia derivar daquele terrível Vasconcelos que até em sonhos o aterrava e sim das mãos amigas de um velho camarada dos bons tempos da infância.

Estranhou-o logo, desde as primeiras palavras.

«Meu filho».

Até então, nunca recebera de seu pai esse carinhoso tratamento. Vasconcelos nem ao menos o tratara por tu; nunca lhe dera a beijar a mão ou a face, nunca lhe abrira, enfim, o coração, quando este se achava ainda brando e maleável, para depor aí as sementes de ternura, que desabrochariam mais tarde produzindo os bons sentimentos do homem.

Como exigir de Amâncio, que tivesse agora as virtudes que, em estação propícia, lhe não plantaram na alma? Como exigir-lhe dedicação, heroísmo, coragem, energia, entusiasmo e honra, se de nenhuma dessas coisas lhe inocularam em tempo o germe necessário?

Ele, coitado, havia fatalmente de ser mau, covarde e traiçoeiro. Na ramificação de seu caráter a sensualidade era o gamo único desenvolvido e enfolhado, porque de todos só esse podia crescer e medrar sem auxílios exteriores.

Vasconcelos, por conseguinte, chegou tarde; encontrou já enrijado e duro o coração do filho.

E, no entanto, toda a sua carta vinha finada por aquelas primeiras palavras. Agora, de longe, fazia o que, por inépcia, nunca fizera de perto -dirigia-se amorosamente ao rapaz. Contava-lhe novidades da província, comentava certos fatos escandalosos, falava sem reservas de umas tantas coisas, das quais até aí nunca se permitira tratar na presença de Amâncio.

O tópico seguinte levou o provinciano ao cúmulo da admiração:

«Não digo que te faças um santo, mas também não te afogues no torvelinho dos prazeres. Goza, meu filho, por isso que és moço, goza, porém, com prudência e com juízo; diverte-te mas evitando sempre tudo aquilo que te possa prejudicar. Lembra-te de que saúde só tens uma, e moléstia há muitas. O mundo não se acaba! Adeus. Nunca deixes de me escrever e, quando te vires aí em qualquer apuro, fala-me com franqueza.»

Tudo isso vinha tarde. Muita coisa, à semelhança do leite materno, só nos aproveitam até certa época. Depois, em vez de fazerem bem, fazem mal.

As palavras de Vasconcelos que, aplicadas no tempo competente, dariam ótimos resultados em benefício do filho, eram agora para este um simples pretexto de galhofa. Amâncio sorriu da aparente transformação de seu pai.

-Ora para que havia de dar o velho!...

Não obstante, um vago sentimento, ao mesmo tempo amargo e agradável, apoderou-se dele. Desfrutava certo gosto em merecer aquela intimidade paterna; mas, por outro lado, doía-lhe a consciência por não ter sido melhor filho; como se o pobre rapaz de qualquer forma contribuíra para semelhante falta.

E, então, acudiu-lhe à memória uma circunstância de que jamais se havia lembrado -a despedida do pai. Vasconcelos estava bastante comovido nesse momento e abraçava-o chorando. Amâncio nunca lhe tinha visto o rosto com aquela simpática expressão de sofrimento; mas, bem pouco se impressionou na ocasião; os olhos conservaram-se-lhe enxutos e o coração quase alegre com a idéia da liberdade que ia principiar.

Só agora, depois da carta, depois que soube que era amado pelo velho, uma grande tristeza invadiu-o todo, e as lágrimas rebentaram-lhe com explosão.

Assim sucede sempre aos filhos educados à portuguesa, cujos pais como que sentem vexame de lhes patentear o seu amor.

Pobres pais! Quantas vezes não estarão morrendo por afagar o filho, e todavia, em vez de lhe darem um sorriso carinhoso, um beijo, uma palavra de doçura, fingem-se indiferentes e afastam-se para que o pequeno não lhes perceba a comoção.

Néscios! Julgam que com isso estabelecem uma corrente de respeito entre eles e os filhos; julgam que isso é indispensável para o bom êxito da educação; quando todas essa anomalia só pode servir para lhes roubar a confiança e a estima dos entes predestinados e dedicar-lhe todas as primícias de sua ternura.

Os pais dessa espécie levam a tal exagero a sua convencional rispidez, que, se acham a graça em alguma coisa feita pelo filho, sufocam o riso, medrosos de que qualquer expansão acarrete uma quebra ao respeito filial.

Foi tudo isso, ao justo, que se deu com Vasconcelos a respeito de Amâncio. Amou-o, mas com disfarce; fingiu-se diretor inflexível, quando era simplesmente um pai como qualquer outro. Muita vez chorou de ternura, mas sempre às escondidas; muita vez sentiu o coração saltar para o filho, mas sempre se conteve, receoso de cair no ridículo.

E não se lembrava, o imprudente, de que o amor de pai é bem contrário ao amor de filho; não se lembrava de que aquele nasce e subsiste por si e que este precisa ser criado; que aquele é um princípio e que este é uma conseqüência; que um vem de dentro para fora e que o outro vem de fora para dentro. Não se lembrava, o infeliz, de que o primeiro existirá fatalmente por uma lei indefectível da natureza: ao passo que o segundo só aparecerá se lhe derem elementos de vida.

Foi desses elementos que Amâncio nunca dispôs para poder amar o pai.

***

O fato é que, depois da leitura da carta, o estudante sentiu, pela primeira vez, algum desejo de dar notícias suas a Vasconcelos; até aí só o fazia por honra da firma.

Campos, que lhe apareceu em seguida, veio transformar esse desejo em vontade, falando-lhe da correspondência extraordinária que, pelo mesmo paquete, recebera do Maranhão. O velho Vasconcelos também lhe havia escrito e, com tanto interesse lhe falara de Amâncio, tão inconsolável se mostrara e tão saudoso pelo filho, e com tal insistência pedira ao negociante para olhar pelo rapaz, que o bom homem não hesitou em correr logo à casa de pensão de Mme. Brizard.

O estudante carregou com ele para o quarto. -Aí conversariam mais à vontade.

-Pois, meu nobre amigo, disse o marido de Hortênsia, assentando-se defronte de Amâncio e batendo-lhe uma palmada na coxa -seu pai não se cansa de falar a seu respeito. São as saudades, coitado!

E tirando uma carta do bolso para a entregar ao outro:

-Leia, leia e veja como está triste o pobre velho! Ah, meu amigo, acredite que -possuir um pai é a maior fortuna que se pode ambicionar neste mundo!

Amâncio, entre outras coisas, leu o seguinte:

«Não imagina Sr. Campos os cuidados em que eu e a minha boa Ângela nos temos visto por cá com a ausência do rapaz. Nunca pensei que nos fizesse tanta falta. Ela coitada, leva a chorar desde que amanhece, e à noite é aquela certeza dos sonhos ruins e mais não ser! Acho-a muito magra e abatida de tempos a esta parte. Então quando não recebe cartas do filho, o que já se observa há três vapores consecutivos, fica prostrada de tal modo que se não pode levantar da cama.

Veja, por conseguinte, se alcança que o nosso estudante nunca nos deixe de escrever; duas palavras que sejam, dizendo como está de saúde e que vai bem nos seus estudos. Isso, que a ele não custará muito, poupa todavia cá por casa muitas horas de sofrimento e de desgosto.

Até já me lembrou providenciar no sentido de faze-lo vir no fim do ano passar as férias conosco, não sei porém, se tal coisa será conveniente ainda tão no princípio da carreira. O amigo dispensar-me-á o obséquio de escrever a esse respeito.

Em todo o caso, a idéia de que o senhor está aí, perto dele, e que, pelo que tem mostrado, é deveras nosso amigo, tranqüiliza-nos em grande parte. Conto, pois, que olhará sempre por Amâncio. Tenha paciência, sei que o importuno com estas coisas, mas que hei de fazer? dizem tanto dessa Corte; falam de tal forma do clima e dos mil perigos a que aí está sujeita a mocidade, que, só a lembrança de uma tísica galopante ou de um desses desvios, uma dessas loucuras que às vezes acometem os rapazes e inutiliza-os para o resto da vida; uma dessas desgraças, Sr. Campos, que lhes sucedem facilmente quando eles não dispõem de um bom amigo que os encaminhe e aconselhe; só a lembrança de tudo isso, meu caro senhor, é o bastante para me tirar o sossego do espírito.

Tenha a bondade, sempre que falar ao meu rapaz, de lembrar-lhe as obrigações e dizer-lhe com franqueza a responsabilidade que agora lhe assiste. Ele está se fazendo homem e precisa preparar futuro. Sirva-lhe de pai; acompanhe-o e proteja-o com o mesmo desvelo de que usou meu irmão para guiar a sua mocidade.»

-Vê? disse Campos, abalado com as palavras do irmão de seu protetor. -São estes os desejos de seu pai; ao senhor compete agora, como bom filho, fazer-lhe o gosto, e dar-lhe a felicidade de que ele precisa para o resto da vida. O que estiver em minhas forças está à sua disposição; mas o senhor também deve fazer por si, já não é tão criança para não ver o que lhe fica bem e o que lhe fica mal! Enfim, tenho toda a confiança no senhor, seu Amâncio, e estou convencido de que não me desmentirá!

Amâncio, que até aí ouvia Campos em silêncio e com os olhos presos a um ponto, agradeceu-lhe muito aquele interesse e jurou que todo o seu empenho era corresponder à expectativa de seus pais e ser agradável o mais possível aos verdadeiros amigos de sua família.

E a conversa, tomando novas direções, descaiu em assuntos menos circunspectos. Veio então à baila o baile de Melo, e Campos queixou-se de que Amâncio, depois disso, nunca mais lhe aparecera em casa.

-Já tinha a intenção de lá ir domingo...

-Não, contradisse o negociante. -Vá antes, sábado, amanhã, que é aniversário de meu casamento. Não há festa, mas reúnem-se alguns camaradas e toca-se um bocado de piano. Adeus. Não deixe de ir. Olhe, se quiser pode levar seus amigos. Adeusinho.

Amâncio acompanhou-o até à porta da rua e voltou ao quarto.

Estava preocupado; não mais com as cartas da família, mas com a deliciosa intenção de reatar no dia seguinte o namoro de Hortênsia. Só uma pequena circunstância lhe mareava o antegozo desses sonhados momentos de ventura: era a idéia dos seus compromissos como estudante; sentia-os agravados perante a confiança que lhe depositavam, e agora, mais que nunca, a consciência do seu relaxamento, a lembrança de haver faltado às aulas tantas vezes e de não ter aberto livro durante a última semana, azoinavam-no desabridamente.

-Oh! os estudos! os estudos eram o ponto negro de sua vida, o seu desgosto, o terrível espectro de todos os seus sonhos! As regalias que daí viessem mais tarde, fossem elas quais fossem, nunca poderiam compensar aquela profunda tristeza, aquele aborrecimento invencível, que o devoravam.

Semelhante preocupação tirava-lhe o gosto para tudo, azedava-lhe todos os melhores instantes de sua vida. Cada minuto, que se escoava na ociosidade, era mais uma gota de remorso caída no sombrio pélago de seu tédio.

E, contudo, os minutos, os dias e as semanas iam escapando, sem que Amâncio lograsse vencer a sua antipatia pelo trabalho. Olhava com repugnância para os melancólicos compêndios da faculdade, e, quando teimava muito em os conservar abertos defronte dos olhos, quase sempre adormecia.

Um verdadeiro tormento!

***

Amâncio obteve de João Coqueiro que o acompanhasse à soirée de Campos.

Foi uma noite cheia para ambos; se bem que Hortênsia, de tão preocupada com os arranjos da casa, muito pouco se dera às visitas.

Carlotinha, sim, mostrava-se alegre e comunicativa que nem parecia a mesma. Chegou-se muito para Amâncio, meteu-se com ele de palestra, a fazer pilhéria, a criticar das outras senhoras, com visagens disfarçadas e pequeninos risos estalados por detrás do leque.

O estudante ficou pasmo, quando descobriu que toda essa intimidade procedia do namoro dele com Hortênsia. À primeira indireta da rapariga, o rapaz corou e respondeu titubeando. Carlotinha, porém, o tranqüilizou, dando a entender que era discreta e interessada nos segredos da irmã.

E, já em indícios de gracejo, aconselhou-o que freqüentasse a casa com mais assiduidade; um domingo sim, outro não, para jantar. Seria muito bem recebido, alguém fazia questão dessas visitas...

Amâncio, no seu papel de inocente, quis saber quem era esse alguém, mas a rapariga negou os esclarecimentos e pediu-lhe em segredo que se calasse, piscando o olho para o lado esquerdo, onde acabava de assentar-se um sujeito gordo, de barba toda raspada.

-É o Costa! Nada lhe escapa!... soprou ao estudante por debaixo do leque. E depois, em voz alta, disfarçando:

-Pois o baile de Melo esteve muito bom!...

-Muito... confirmou Amâncio. -Há longo tempo não me divirto assim!... Mas, para a senhora creio que ainda seria melhor, se lá estivesse certa pessoa!...

-Quem? O guarda-livros?... Ora!

E, com ar desdenhoso, declarou que há quinze dias ficara tudo acabado.

-Seriamente? perguntou o estudante.

-Sério! E não me sinto com isso, até estimo! No fim de contas aquilo é um tipo impossível; tão depressa está para o norte como para o sul!

-Mas a senhora parecia gostar dele tanto...

-Pensei que fosse outra coisa... respondeu Carlotinha, franzindo os lábios. -Quando, porém, descobri o que ali estava, dei tudo por acabado! foi muito bom; antes assim do que depois do casamento!...

E, para mostrar a sinceridade daquela indiferença, ria com exagero e dava a sua palavra de honra em como não tinha paixão por homem nenhum deste mundo. Havia de casar, sim, porque isso era necessário, mas não que preferisse este ou aquele, não. Todos eles eram a mesma coisa. -uns tipos!

Amâncio defendia o seu sexo, experimentando já pela rapariga uma nascente repugnância instintiva.

Quando, às três horas da madrugada, os dois estudantes se despediram, Campos, entre muitos oferecimentos, pediu ao «Sr. Dr. João Coqueiro» que voltasse qualquer dia, mas com a família. Ele tinha nisso muito gosto.

Coqueiro prometeu fazer-lhe a vontade e retirou-se com o amigo.

Quase nada conversaram pelo caminho. Amâncio parecia aflito por se meter na cama; uma vez, porém, recolhido ao seu novo quartinho do segundo andar, não sentia a menor disposição para dormir.

A circunstância de saber que Lúcia estava ali tão perto, a quatro ou cinco passos, mas inteiramente fora do seu alcance, o indispunha como se fosse uma pirraça levantada com o fim único de o afligir.

Não resistiu ao desejo de ir, como da outra vez, espreitar pela fechadura do quarto em que ela morava, e encaminhou-se sorrateiramente para o n.º 8. Nesta tentativa, porém, foi ainda mais infeliz do que da primeira, porque a janela do corredor ficara aberta, e Amâncio principiou a espirrar, constipado.

O doente do n.º 7 tossia, de vez em quando.

Amâncio voltou ao quarto, muito aborrecido. Abriu um livro, mas repeliu-o logo, com tédio. Lembrou-se de fazer café. (Na véspera comprara uma maquinazinha e os apetrechos necessários para isso.) -O melhor, porém, seria tomar o café depois de um banho. Deu lume à máquina e desceu ao primeiro andar, já despido e rebuçado no lençol.

Queria passar pelo quarto da mucama, que ele agora sabia ao certo onde era; mas, na ocasião em que entrava na sala de jantar, deteve-se cautelosamente com a presença de um vulto que acabava de aparecer do lado oposto. A custo reconheceu Coqueiro; do lugar onde se achava podia observar sem ser visto. O dono da casa atravessou pé ante pé a varanda e, encaminhando-se para o fundo do corredor, sumiu-se no tal sítio, por onde justamente queria passar o outro.

-Será possível?... considerou Amâncio, que se adiantara precatamente para certificar-se do que vira.

-Que grande velhaco!

E era aquele tipo que, «por moralidade não admitia em casa certas visitas!»...

-Ah! meu pulha! pensou o estudante.

-Como podia agora tomar a sério a casa de Mme. Brizard?... Que juízo devia fazer de toda aquela gente? E Amelinha? o que vinha ser aquela Amelinha?...

Dois espirros cortaram-lhe a teia dos raciocínios, e em seguida um calafrio muito penetrante lhe percorreu o lombo. Sentiu-se indisposto; não obstante, desceu ao banheiro. -Aquilo desapareceria com um pouco d'água pela cabeça.

Mas, quando voltou ao quarto, já lhe doía o corpo e tinha as pernas entorpecidas levemente.

Tomou uma chávena de café, bebeu um gole de conhaque, e meteu-se na cama, tiritando.

Não se pôde erguer no dia seguinte. Coqueiro apresentou-se-lhe no quarto, logo pela manhã, muito sobressaltado com os incômodos do querido hóspede. Estava mais inquieto do que se tratasse de salvar a vida de um parente insubstituível.

Perguntou se Amâncio queria médico; se precisava de alguma coisa. -Que diabo! dispusesse com franqueza. Ele estava ali às suas ordens!...

O doente apenas desejava que o amigo desse um pulo à agência dos vapores e trouxesse o constante de um conhecimento, que lhe pediu para procurar nas algibeiras do fraque.

Coqueiro obedeceu prontamente.

Era um pacote de doces que lhe enviava a mãe. Havia frascos de bacuris em calda, muricis, cajus cristalizados e buritis em massa para refresco. Amâncio, logo que o colega voltou com o presente, fez acondicionar tudo sobre a mesa, defronte de sua cama.

Nesse instante, Mme. Brizard e Amelinha invadiam-lhe o quarto, ávidas de informações.

-Que tinha o Sr. Vasconcelos? -Que sentia? Como lhe aparecera a febre?

E a francesa, depois de consultar o pulso ao rapaz, afiançou que aquilo não valia nada. Ele que tomasse um suadouro, que se deixasse ficar na cama e havia de ver que no dia seguinte estava pronto.

Lambertosa, chegando logo em seguida, pediu ao doente que aceitasse uma dose de acônito e deixasse o resto por sua conta.

Mas a febre recrudesceu depois do almoço. Amâncio queixava-se de dores na cabeça, na espinha e nos quadris.

-Tudo isso é ar! afirmou o gentleman autoritariamente. -Acônito! Dê-lhe com o acônito!

Foi Amelinha a encarregada de ministrar ao doente, de hora em hora, uma colher de remédio.

Mme. Brizard falou muito da inconstância do clima do Rio de Janeiro, das precauções que se deviam tomar contra as umidades; do risco que havia em comer certas frutas e, afinal, retirou-se, tendo apalpado ainda uma vez o pulso e a testa do hóspede.

Amelinha revelava-se extremamente solícita. Andava no bico dos pés, a borboletar pelo quarto, arrumando os livros sobre a mesa, apanhando a roupa espalhada pelo chão, acudindo a qualquer movimento do estudante, que dormia entanguecido debaixo dos lençóis.

Ele, coitado, parecia cada vez pior. Ardiam-lhe os olhos desabridamente; o hálito queimava; não podia suportar o cheiro do fumo e queixava-se de muita sede e comichão pelo corpo.

Amelinha, sempre irrequieta e passarinheira, preparava-lhe copos de água com açúcar. Agachava-se à borda da cama, mexia e remexia com a colher o sacarífero calmante e, depois de o provar com a pontinha da língua, passava-o às mãos de Amâncio. Este, porém, mal bebia, voltava-se de novo para a parede, gemendo de olhos fechados.

Pelas duas horas da tarde, Lúcia pediu licença para lhe fazer uma visita. Entrou cheia de cerimônia, e assentou-se gravemente em uma cadeira, à cabeceira do leito.

O doente voltou-se logo e agradeceu-lhe aquela fineza com um olhar muito triste e injetado de sangue.

Ela mostrava-se interessada; pedia informações a respeito da moléstia. Amâncio respostava com dificuldade. Parecia moribundo.

Mas, quando Amélia saiu e desceu ao primeiro andar, ele tomou rapidamente as mãos da outra e cobriu-as de beijos que a febre tornava mais ardentes e mais queimosos.

-Eu te amo! Eu te amo! dizia ele.

-Bem, mas fique quieto! Isso pode fazer-lhe mal! retrucava a suposta mulher de Pereira. -Nada de tolices! Deite-se! Deite-se!

Amâncio libertou os braços do cobertor, apoderou-se da cabeça de Lúcia, e começou a beijar-lhe os olhos, a boca e os cabelos, numa sofreguidão irracional.

As lunetas da «ilustrada senhora» haviam caído, e ela encarava o rapaz, sem dizer palavra, a lhe cavar os seus grandes olhos de míope, alterados pelo abuso do vidro de graduação.

Tiveram de disfarçar, porque alguém se aproximava.

O enfermo voltou logo aos lençóis e pôs-se novamente a gemer.

Era Coqueiro quem vinha. Desde a entrada mostrou-se contrariado com a presença de Lúcia. Transpareciam-lhe no rosto os sintomas da desconfiança. Dir-se-ia um ciumento a penetrar de chofre nas recâmaras da amante.

-Aquela mulher não podia estar ali com boas intenções!...

E foi de mau humor que Coqueiro respondeu a uma pergunta dirigida por ela a respeito da moléstia.

Lúcia, também, não deu mais palavra e, logo depois, saiu muito enfiada.

***

À noite apresentou-se Campos, a quem Coqueiro, de passagem, prevenira dos incômodos de Amâncio; trazia consigo um médico.

Este declarou incontinente que o rapaz tinha bexigas; mas, antes que fizessem espalhafato, afiançou que eram benignas. «Bexigas doidas, cataporas, como vulgarmente chamavam por aí. Ficassem tranqüilos, que o caso não era grave; convinha, porém, ter algum cuidado com o doente: -evitar a ação do vento e muita limpeza com a roupa da cama.»

Receitou e saiu, prometendo voltar no dia seguinte. Campos seguiu-o até à escada do corredor e tornou ao segundo andar.

A mulher de Paula Mendes, que abrira a porta do quarto para escutar o que dizia o médico, rompeu logo a falar sobre o abuso de consentirem ali «um bexigoso»!

Daquela forma, em breve a casa se transformava num hospital! Já tinham um tísico, que à noite não a deixava dormir com o gogo; agora era um bexiguento; amanhã seria a febre amarela e depois a lepra! -Arre! Em chegando o marido havia de mostrar o que faria!

Lambertosa, a pretexto de que sentia muito calor, empacotou o que tinha no quarto e lá se foi moscando à francesa.

-Nada! segredou ele embaixo ao Fontes que jogava o dominó com a mulher na sala de jantar. -Tenho medo disto que me pélo; em pequeno vi morrer três sujeitos de pancada com as tais cataporas! Vou para a chácara de um amigo nas Laranjeiras! E, se a madame não tratar de pôr fora o doente, ei também aqui não porei mais os pés!

E, vendo que Fontes parecia impressionado com as suas palavras:

-Pois não acha o amigo que tenho razão?... Pode-se lá admitir um varioloso dentro de uma casa como esta, cheia de hóspedes?...

-Está claro! disse a mulher de Fontes, empurrando as pedras do dominó. -Eu também aqui não fico! Ou o doente se muda ou então mudo-me eu! E logo o quê! -bexigas! Deus nos defenda! Até parece que já sinto um formigueiro por todo o corpo... Credo!

-Sim, disse o marido -mas não acredito que Mme. Brizard esteja disposta a ficar com ele dentro de casa!

O gentleman havia já desaparecido, como se levasse uma fera atrás de si; os dois outros ergueram-se e conversavam assustados sobre o grande fato; enquanto Nini, que, desde às cinco horas jazia estendida em uma cadeira ao canto da varanda, com um lenço amarrado na cabeça, escutava-os silenciosamente, os olhos pendurados no vago.

Depois daquela cena violenta com Amâncio, a pobre criatura se quedara mais apreensiva e mais triste. Eram suspiros sobre suspiros e nem uma palavra durante o dia inteiro; às vezes dava-lhe para chorar e não havia meio de a conter.

Em cima Campos tomou o chapéu e o guarda-chuva, mas, antes de sair, consultou a opinião de Coqueiro e de Mme. Brizard sobre o que melhor convinha fazer a respeito do varioloso. «Talvez fosse mais acertado levá-lo para uma boa casa de saúde!»... -Eles que se não constrangessem: se era inconveniente ficar ali o rapaz, falassem com franqueza, porque tudo se podia arranjar perfeitamente.

Mas os locandeiros protestaram logo, com energia: -Longe de ficarem constrangidos, tinham muito gosto em ser úteis ao Dr. Amâncio. -Que já o estimavam tanto, que não teriam ânimo de o desamparar, justamente quando o pobre moço, longe da família, mais precisava de cuidados!

-Verdade é que as bexigas não são das más... considerou o negociante, alisando o pêlo de seu chapéu alto. -Mas os outros hóspedes talvez não pensem como a senhora e seu marido... E daí, quem sabe?... queiram deixar a casa e...

Mme. Brizard declarou que por esse lado estava sossegada. «Os bons hóspedes não desertariam por tão pouco, e quanto aos maus, se se fossem não fariam falta.»

Campos agradeceu pelo recomendado aquela boa vontade; tornou a dizer que não poupassem despesas com a moléstia e, quando porventura houvesse alguma dúvida ou alguma dificuldade, era mandar imediatamente um recadinho à Rua Direita, que ele lá estava sempre às ordens.

E ainda voltou ao quarto do rapaz para lhe rogar mais uma vez que não tivesse receio de importuná-lo em qualquer ocasião e, outrossim, para saber se, por enquanto, ele não precisava de mais alguma coisa.

Amâncio desejava unicamente que o amigo procurasse descobrir por onde andava o Sabino, que agora lhe fazia muita falta; e, caso o encontrasse, tivesse a bondade de remeter-lho; seria um grande favor.

Veio à questão o quanto madraceavam os escravos ultimamente. Mme. Brizard jurou que não havia melhor vida do que a deles; disse que Amâncio fizera mal em consentir que um negro de sua propriedade andasse por aí tanto tempo, sem lhe prestar contas; quando, alugado, lhe podia dar de rendimento pelo menos quarenta mil-réis mensais. E, de sua parte recomendou a Campos que fizesse diligências para descobrir o tratante e o deixasse ali, que ela mostraria se o punha ou não a bom caminho.

O negociante retirou-se afinal, entre novos protestos e novos oferecimentos.

Mme. Brizard, Coqueiro e Amelinha não abandonaram o quarto do doente até mais de meia-noite; ora um, ora outro, acompanhavam-no sempre. Lúcia também aparecia de quando em quando; ao passo que o marido, sem jamais acordar completamente, nem dera pelo reboliço em que ia a casa.

Por toda a parte sentia-se já o cheiro da alfazema queimada. O esquisitão do n.º 4, muito comprido no seu poncho de brim pardo, que lhe batia desairosamente nas tíbias mal compostas, espaceava no corredor, cantarolando, em voz soturna, o De Profundis.

-Olha que agouro! resmungou a mulher de Paula Mendes ao vê-lo passar e, já encolerizada pela demora do marido, fechou a porta do quarto com um pontapé. -Logo aquela noite é que o diabo do homem entendia de demorar-se mais tempo na rua! Raios o partissem, diabo!

Melinho, a pérola do n.º 9, também não aparecera; e Piloto, ao saber, ainda na porta da rua, que havia um bexigoso no segundo andar, fez um careta, benzeu-se comicamente, e desgalgou pelo mesmo caminho que trazia, afetando trejeitos exagerados de medo. O guarda-livros é que bem pouco se incomodou com a notícia; tinha lá o seu gabinete ao lado da sala de visitas, e aí com certeza não chegariam as miasmas.

Estava em cima Coqueiro a discutir com a família sobre quem devia acompanhar o enfermo durante o resto da noite, quando entrou Paula Mendes, estranhamente alegre, a cantar em voz alta. O dono da casa correu logo ao seu encontro e lhe pediu que não fizesse bulha. -O hóspede do n.º 6 estava de cama!

Mendes respondeu com descostumada grosseria, arrastando a voz. Catarina ao vê-lo naquele estado, fechou bruscamente a porta do quarto, que nesse mesmo instante havia aberto, e gritou-lhe de dentro: «Que fosse cozinhar para longe a bebedeira! Que voltasse para onde se tinha emborrachado! Era só também o que faltava -que, além de tudo, tivesse de aturar bêbados! Estavam bem servidos!»

E todos, com grande espanto, se convenceram de que efetivamente Paula Mendes vinha ébrio, logo que o viram principiar a bater, como um possesso, na porta do quarto, berrando pela mulher, sem se poder agüentar nas pernas.

-Pois senhores, disse Mme. Brizard, que acudira com barulho -estou pasma! Desde que o rabequista mora aqui é a primeira vez que o vejo assim!...

-Naturalmente isto foi coisa que lhe fizeram... opinou Coqueiro. -Ele, coitado, é até homem de bons costumes...

Todos concordaram nesse ponto, e o hoteleiro, uma vez capacitado de que a peste da Catarina não abria a porta ao marido, carregou com este para o quarto que Lambertosa acabava de despejar.

-Diabo! resmungou, deixando-o cair sobre a cama. -Hóspedes que só dão de lucro estas maçadas!

Resolveu-se que seria o copeiro quem acompanharia o enfermo durante o resto da noite. O médico recomendara que dessem o remédio de três em três horas. Lúcia lamentou que, justamente nessa ocasião, a sua Cora estivesse em Cascadura ajudando a uma amiga a morrer, porque ao contrário Amâncio não teria outra enfermeira. «Ah! não havia como aquela mulata para tratar de um doente!»...

Mas o copeiro assumiu o posto que lhe designaram, e cada um se recolheu ao competente dormitório. Catarina ainda rabujou sozinha por um tempo; Paula Mendes caiu num sono de chumbo, e a casa foi pouco a pouco se atufando nas brumas silenciosas da noite.

Só então, de tão fracos que eram, ouviam-se os bufidos cavernosos do tísico que, no triste abandono de sua miséria, continuava a gemer, sufocado pela dispnéia.

O desgraçado já não tinha forças para sair à rua. A sua moléstia entrara no segundo período; cresciam-lhe as dores do peito e apareciam-lhe agora, pela madrugada, acessos febris, acompanhados de suores frios e gordurosos.

A magreza desnudara-lhe os ossos, e os alimentos faziam-lhe repugnância. Como era muito pobre, ninguém se interessava por ele; os criados serviam-no mal e a más horas. Traziam-lhe a comida e depunham-na sobre o velador. «O bodega lá que se arranjasse!»

Mme. Brizard, por mais de uma vez, dissera:

-Também aquele estafermo não ata nem desata!...

***

Por voltas das quatro da madrugada, Amâncio sentiu passarem-lhe brandamente a mão pela testa, e despertou estremunhado.

Um candeeiro de azeite derramava no quarto a sua meia claridade trêmula e duvidosa. Era tudo silêncio e quietação.

-Lúcia! disse ele, reconhecendo-a e tentando passar-lhe o braço na cintura.

-Psiu! fez a ilustrada senhora com um dedo nos lábios. -Tenha modo! O copeiro está dormindo e, como o médico recomendou que não deixassem lhe dar de hora em hora uma colherada do remédio, eu...

-Meu amor!

-Nada de bulha! Tome o remédio e trate de dormir, que você está doente.

Amâncio bebeu a tisana e com um gemido arrastado pousou de novo a cabeça nos travesseiros.

-Como se acha ensopada esta camisa! observou Lúcia, apalpando-lhe as costas solicitamente. E perguntou logo onde estava a roupa branca.

O rapaz apontou com dificuldade para a gaveta inferior da cômoda, e acrescentou careteando:

-No findo, ao lado esquerdo.

Ela foi abrir o gavetão, muito de mansinho, para não acordar o copeiro, que dormia a sono solto sobre um enxergão no soalho, e reveio, toda desvelos com uma camisa aberta nos braços.

-Vamos! Mude essa roupa. O remédio está produzindo efeito. É preciso não resfriar.

O estudante despiu a camisa suada e vestiu a outra.

-Agora sente-se melhor? perguntou a mulher de Pereira.

Estava assim, assim... Ainda lhe doía o corpo, e o comichão não tinha diminuído. Parecia que lhe passeavam formigas pelas pernas.

-Trate de repousar. Adeus. Eu voltarei de manhã, para lhe dar outra dose do remédio. Até logo.

Amâncio pediu-lhe que se demorasse mais um pouco, que se sentasse um instante ao seu lado; ela, porém, muito senhora de si, negou-se formalmente, dizendo com a cabeça que não e recomendando-lhe com um gesto que se acomodasse.

-Ao menos um beijinho... pediu ele.

A outra não espondeu e saiu na ponta dos pés.

Voltou pela manhã, como prometera, mas o copeiro já havia dado o remédio ao doente.

-Então! Como passou? perguntou ela, indo apertar-lhe a mão.

-Ora, mais incomodado com a sua ausência do que com a minha moléstia... respondeu o moço, fazendo um ar infeliz.

-Impressões de momento... retorquiu Lúcia, sorrindo. -Daqui a pouco não se lembrará mais de mim...

E logo que viu sair o preto...

-Para só pensar na Amelinha...

Amâncio fez um gesto de repugnância.

-Tem toda a razão!... prosseguiu ela -toda Amelinha é moça, é bonita, e pode casar!

-Comigo, nunca!... afirmou o rapaz.

-Não poria a mão no fogo... insistiu Lúcia. -Agora eu, sim, já sou papel queimado, e estou velha...

-Velha? Dê-me então a sua benção...

Lúcia sorriu e estendeu-lhe a mão, que ele beijou avidamente, ficando depois e examiná-la, como se contemplasse uma obra de arte.

-É feia... disse a senhora -é comprida demais e magra.

-É adorável! desmentiu o estudante. E tornou a beijar, com exagerado transporte, a mãozinha que conservava entre as suas.

-Está bom. Chega! Para bênção já basta! E ela puxou o braço. -Deve estar a surgir o batalhão de seus enfermeiros! Adeus.

-Eu os trocaria a todos por ti, minha santa!

-Isso é o que havemos de ver! replicou ela intencionalmente. E saiu do quarto.

Coqueiro, que chegou logo depois, percebeu que Lúcia acabava de estar ali, mas não deixou transparecer a sua contrariedade.

-Então?! perguntou.

O doente fez uma careta de desânimo.

-Tiveste alguma novidade durante a noite?

-Nenhuma, respondeu Amâncio.

-O remédio, tomaste-o?

-Tomei.

Coqueiro deu uma volta pelo quarto, para demorar um pouco mais a visita, e disse frouxamente:

-Bem, tenho que ir pras aulas. Até já! -Loló e Amelinha não tardam por aí.

E retirou-se, a gritar desde cima pela mucama: -Que viesse arrumar o quarto do Sr. Dr. Amâncio!

Mme. Brizard e Amelinha, com efeito, não tardaram a aparecer, falando muito sobre o terror que a moléstia de Amâncio produzia nos outros hóspedes, confessando as maçadas que tiveram as duas na véspera; e, por fim a mais velha desceu para cuidar da casa e a menina ficou para tratar do enfermo.

***

João Coqueiro, à volta da academia, chamou a mulher ao quarto e perguntou-lhe, cruzando os braços e sacudindo a cabeça:

-E o que me dizes tu da Sra. D. Lúcia?...

Mme. Brizard respondeu com um movimento de ombros.

-Bem desconfiava eu!... ajuntou o especulador, depois de uma pausa. -Acredita, Loló, que desde a chegada do Amâncio, tive cá um palpite de que aquela mulher seria um estorvo para os nossos projetos!

A francesa fez um esgar de dúvida. E o esposo acrescentou com raiva:

-Pois se ela não o larga um só instante! Leva a escorá-lo, o demônio!

-Não acreditas que Amelinha se deixe codilhar assim só!... observou a esperta locandeira.

-Ora qual, volveu o outro, zangado. -Ninguém me tira da cabeça que esta mudança do rapaz para o segundo andar, foi coisa arranjada por aquela sirigaita!

E, tendo percorrido três vezes o quarto, parou de repente, muito agitado:

-Mas comigo, bradou -está enganada! Tenho a faca e o queijo na mão! Posso despachá-los, quando bem entender, a ela e mais o bolas do tal marido! E nem preciso inventar pretextos para os pôr na rua, porque eles já devem aí perto de dois meses!

-Pois nós havemos de perder esse dinheiro?! interrogou Mme. Brizard assuntando-se.

-Sim, mas é que eu não os deixo ir, sem ficar garantido! E se quiserem fazer de espertos, confisco-lhes a mulatinha! Não! Aqui para o meu lado é que não se arranjam!

E, recaindo nos projetos a respeito de Amâncio:

-Uma ocasião tão boa para a Amelinha o cativar, se o diabo da intrusa não se metesse entre eles no melhor da coisa! Ah! peste!

Mme. Brizard, que se havia assentado, meditava de cabeça baixa.

-Eu até o acho agora mais reservado e mais frio!... prosseguiu o hoteleiro-estudante. -Já não me consulta quando quer dar algum passo... já não se abre comigo!

E aproximando-se da mulher, exemplificou em voz de mistério:

-Sabes, aquele doce que ele recebeu do Maranhão? foi quase todo para ela! A mim deu unicamente um frasco do tal bacuri(por sinal que não acho graça); para si, creio que guardou uma latinha de geléia, e tudo mais lambeu a gata arrepiada!

-Quê! Pois ele lhe fez presente de todo o doce que recebeu do Norte?...

-Ora! se te estou a dizer!

-Não! exclamou a Brizard escandalizada. -Isso agora não lhe perdôo! A gente aqui a matar-se, a desfazer-se em carinhos, e ele a socar no bandulho daquela bicha os mimos que recebe da família! Não! Isto não se faz!

-Pois fez! Sustentou Coqueiro. -E, se não abrirmos os olhos, ela é capaz de arrancar-lhe até a última camisa!

-Dar todo o doce àquela criatura!... repisava a francesa. -É quanto pode ser!...

-Pois deu!

-Sempre o supunha outra espécie de gente!...

-Não é pelo doce, explanou o marido -mas sim pelo alcance do fato! Nós, o que devemos fazer é, quanto antes, tomar medida muito séria a respeito de tudo isto!

E, fitando a mulher com resolução:

-Vamos a saber! Achas que os devemos pôr no olho da rua?!

-Mas, filho, sem pagarem?...

-Ainda que não paguem, ora essa! Dos males o menor! Lembra-te de que o Amâncio não inventou a pólvora e pode, muito bem, ser fisgado por aquela lambisgóia!... A cabra não tem nada de tola!... Que achas tu?!

-Sim, mas também para deixá-los ir com o nosso cobre...

-Fica-se com um documento selado e podemos persegui-los a todo o tempo!

-Isso é asneira!

-Asneiras é perdermos o futuro de Amelinha por causa de alguns mil-réis!...

Mme. Brizard ainda hesitou.

-Então? insistiu Coqueiro. -A termos de tomar esta resolução, deve ser já e já, que a oportunidade é magnífica; talvez até nunca mais pilhemos um ensejo tão favorável! -Minha filha, nem sempre há cataporas!...

A outra, afinal, consentiu, e ficou deliberando que Pereira e Lúcia seriam postos na rua, se não saldassem imediatamente as suas contas.

-Estão ali, estão fora!... profetizou o locandeiro, esfregando as mãos.

Algumas horas depois, quando Pereira descrevia tropegadamente a sua órbita consuetudinária entre a mesa do jantar e a preguiçosa, Coqueiro, entrepondo-se-lhe no caminho, meteu-lhe na mão uma folha de papel dobrada sobre o comprido, e disse-lhe em tom seguro e repassado de urgências:

-É uma nova continha de suas despesas. O amigo desculpe, mas, se me pudesse pagar isto até amanhã, não seria mau, porque tenho de satisfazer aos fornecedores.

-Havemos de ver... balbuciou o hóspede, correndo pelo papel os olhos meio fechados.

O credor advertiu-o em voz baixa de que havia já esperado muito e que o Sr. Pereira, pelos modos, não se lembrara dele.

-Tem toda a razão... concordou o dorminhoco. -Juro-lhe, porém, que me não esqueci do senhor. Ainda não recebi dinheiro, sabe?

-Sim, retorquiu o outro -mas o senhor também sabe que eu preciso fazer face aos gastos da casa e...

-Tenha paciência... bocejou Pereira. -Tenha um pouco de paciência. Hei de cuidar disso.

-Mas é que não posso esperar mais, Sr. Pereira!

-Não há novidade! Pode ficar descansado, que não há novidade, respondeu aquele espreguiçando-se, já importunado com o transtorno de não se poder estirar na cadeira. E entregou a conta a Lúcia, que se aproximava com ar de curiosidade. Feito isto, deixou-se cair na preguiçosa, inalteravelmente, como nos outros dias. Daí a pouco ressonava.

A mulher leu a conta do princípio ao fim, sem um gesto, nem uma palavra; depois, ainda em silêncio, dobrou-a de novo e meteu-a no seio.

No dia seguinte pela manhã o copeiro, apresentava-se-lhe no quarto, exigindo, em nome do patrão a reposta do pedido que este na véspera fizera ao Sr. Pereira.

Lúcia, molestada com semelhante pressa, respondeu de mau humor que -mais tarde daria uma resposta... O marido ia sair para buscar dinheiro!

O criado retirou-se, e ela foi logo, muito zangada, despertar Pereira com um violento empuxão.

-Você é uma lesma! exclamou. -Põe-se a dormir desse modo, e cá fico eu para me haver com as contas!

-Que contas?... perguntou o homem, esfregando os olhos pachorrentamente e escancarando a boca.

-Que contas! A conta de casa! a conta do que você e eu.

-Deixa disso, nhanhã...

-Que contas! A conta da casa! A conta do que você e eu comemos!

-Havemos de ver isso...

-Havemos de ver, não! Que é preciso resolver qualquer coisa! O homem quer dinheiro; não me larga a porta!

E, puxando-o por um braço:

-Você não me ouve?! berrou a mulher, desfechando-lhe um murro nas costas. -É preciso que lhe dê com os pés para o acordar, seu burro?!

Pereira não fez caso e tornou a aninhar-se na cama, encolhendo as pernas e os braços.

-Não me amole! tartamudeou ele, sem voltar o rosto. Lúcia, que já se não podia conter, saltou-lhe ao gasganete e encheu-lhe a cara de bofetões.

Pereira ergueu-se num pulo, e, muito estremunhado, olhou sério para a mulher:

-Ora vamos lá!... disse, e começou a espreguiçar-se, retesando os braços.

-Diabo do sem-préstimo! resmungou a outra com desprezo, enviesando a boca e cuspindo o olhar por cima do ombro. -Não tem um vislumbre de brio naquela cara!

-Já trouxeram o café?... perguntou o sem-préstimo, cuidando de lavar o rosto e os dentes.

Lúcia respondeu-lhe com uma injúria e saiu do quarto arremessando a porta; mas reveio logo e gritou em tom de ordem:

-Vista-se já e ponha-se em caminho, que é preciso arranjar dinheiro!

Pereira vestiu-se demoradamente, sempre a abrir a boca, depois seguiu para o primeiro andar no seu passo miúdo, os braços a jogarem-lhe num movimento pendular, como se os tivesse seguros à omoplata apenas por um atilho. Tomou o seu café com leite e o seu pão com manteiga e foi espaçar para a chácara, à espera do almoço.

A mulher seguiu-o e, logo que o alcançou, bateu-lhe no ombro:

-Então você não se avia, criatura?! você não vê que o homem quer dinheiro e que estamos ameaçados de ir para o olho da rua, seu Pereira?!

-Mas, que hei de eu fazer, nhanhã?...

-Ponha-se em movimento! Vá aos seus parentes, vá aos seus amigos, vá ao inferno! contanto que arranje alguma coisa para tapar a boca daquele judeu! Não me volte de mãos abanando, porque não lhe abro a porta do quarto, percebe?! Você bem sabe que, se bem o digo, melhor o faço!

E, vendo que Pereira não se mexia:

-Então?

-Mas eu hei de sair sem almoçar nhanhã?...

-Pois vá lá! Almoce. Mas é engolir e pôr-se a andar!

-E dinheiro para o bonde?

-Quê? Você já gastou os cinco mil-réis que lhe dei anteontem?!

Pereira explicou que os havia gasto contra a vontade, porque uns sujeitos o obrigaram a pagar cerveja e doces numa confeitaria.

-Você é um palerma! disse a mulher. -Tome lá mil e quinhentos. Mas veja agora se também os vai comer de doce!

***

Desde a véspera, entretanto, que Amelinha não se despregava do lado de Amâncio, senão quando este dormia ou quando precisava ficar só; levou a costura para o segundo andar, e pôs-se a coser no corredor, assentada à porta do quarto do seu doente.

Uma esposa não se mostraria mais afetuosa; ao menor gemido do enfermo, corria logo para ele, sempre meiga, sempre desvelada. Procurava ajudá-lo a suportar a monotonia da moléstia; procurava animá-lo, distraí-lo, fazendo por ter graça, recorrendo, para o entreter, ao que sabia de mais espírito. Seu pezinho, leve e calçado de duraque, parecia não tocar no chão; seu rostinho, mimoso e fresco como um jambo, não se contraía ao fartum insalubre das variolóides.

E dir-se-ia que tudo aquilo não visava outro interesse que não fora a mesma caridade e a mesma dedicação. Nem uma queixa, nem um suspiro, nem um olhar, nem um gesto, que traíssem a esperança de recompensas futuras. Era o bem pelo bem.

O provinciano, muito desvigorizado com a moléstia sentia perfeitamente que os lúdricos impulsos, que dantes lhe inspirava a graciosa rapariga, iam-se agora destecendo e dissipando à luz de um novo sentimento de gratidão e respeito. A primitiva Amélia desaparecia aos poucos, para dar lugar àquela extremosa criança, àquela irmãzinha venerável, que lhe enchia o quarto com o frescor balsâmico de sua virgindade e rociava-lhe o coração com a trêfega mimalhice de sua ternura.

Nos momentos da comida é que se podia ver. Amâncio tinha grande inapetência e torcia o nariz aos alimentos; mas a pequena metia-o em brios, chamando-lhe piegas, fracalhão, dizendo que ele «parecia um neném» e que precisava levar uns petelecos para tomar juízo.

E atava-lhe ao pescoço o guardanapo, esfriava-lhe a canja, soprando amorosamente as colheradas, e, para lhe provar o apetite, paparicava também o que vinha e, com estalinho de língua, dizia e repetia que estava tudo muito bom e muito gostoso.

Ele, às vezes, já se fazia mais doente e mais carecido de cuidados, só para desfrutar os mimos da enfermeira.




ArribaAbajo

- XII -

Dias depois, o médico declarou que Amâncio estava livre do maior perigo. -As bexigas foram boas e secariam prontamente, sem quase deixar sinal na pele.

Dentre em pouco abria-se a janela, do n.º 6, recolhia-se a última roupa que servira à moléstia, defumava-se o quarto pela última vez, e o mimalho entrava afinal na convalescença.

Logo, porém, que deixou a cama, apareceram-lhes dores reumáticas na caixa do peito e nas articulações de uma das pernas. Era o sangue de sua ama-de-leite que principiava a rabear. Bem dizia outrora o médico a seu pai, quando este o encarregou de amamentar o filho.

E, pois, vieram os remédios para a nova enfermidade, e Amâncio, a despeito de sua impaciência por ganhar a rua, continuou encurralado na casa de pensão e submetido a uma dieta rigorosa. Sabino, que Campos lhe remetera na véspera, tomou conta do lugar que o copeiro exercia durante a noite.

Nesses dias, Lúcia muito pouco se chegou para o estudante, receava com isso provocar da parte do Coqueiro alguma violência contra si. -Ah! ela bem sabia que era guardada à vista; toda aquela família já nem ao menos disfarçavam a vigilância em que a trazia; andavam todos eles, desde a velha até o pequeno, a fariscar os passos, descaradamente empenhados em afastá-la o mais possível de Amâncio. -Súcia de bandidos!

Com efeito, nunca mais lhe foi possível até aí fazer ao rapaz uma outra visita noturna. Mas, justamente no dia em que se arejou o quarto, estava Amâncio estendido na cama, a reler um esfacelado volume de Alencar, quando de repente se abriu a porta e Lúcia surgiu, aflita e apressada, correndo para ele num formidável alvoroço.

Seriam mais de onze horas da noite e a família de Coqueiro estava já recolhida.

Amâncio assustou-se com a visita, mas nem por isso a estimou menos.

Quis, antes de tudo, saber que terrores eram aqueles.

-Que diabo havia acontecido? -Mas se alguma coisa ruim acabava de suceder, era, com certeza, por castigo, que ela estava uma ingrata muito grande; já não aparecia aos infelizes; naturalmente tinha medo das bexigas!...

-Oh! não! não! vozeou a ilustrada senhora, agarrando-lhe ambas as mãos com transporte. -Não! Tudo que vier de ti, Amâncio! tudo que te pertence e te diz respeito é bom e sublime para mim!

E correu de novo à porta, certificou-se de que a casa estava bem sossegada, e tornou para junto do estudante, apalpando dos lados e circunvegando olhares inquietos.

Sabino já se havia esgueirado discretamente pelo corredor; enquanto o senhor-moço, ainda meio aturdido com a agressão melodramática de que fora vítima, apanhava, uma por uma, as folhas do Alencar, que se tinham espalhado aos pés da cama.

-Pois olhe, ninguém o acreditaria!... disse ele voltando, afinal, do seu espanto e pousando o livro sobre o velador.

-Por quê? interrogou Lúcia muito séria e muito dura defronte do rapaz.

-Ora, porque!... porque já não há quem a veja! porque a senhora arribou deste quarto, como se aqui alguém lhe quisesse fazer mal!

Ela respondeu com um sorriso de tristeza e um resignado sacudimento de cabeça.

-Os fatos, pelo menos, assim o afirmam... acrescentou o doente.

-Mas, valha-me Deus! tornou a outra. -Pois não vês a perseguição que sofro aqui por tua causa?! Não vês que estou espiada, seguida e vigiada a todos os instantes! Não vês o ciúme que Mme. Brizard, Coqueiro, a tal Amélia, Nini, o diabo! afetam por ti?!

-O ciúme?... perguntou Amâncio, deveras espantado. -Mas o ciúme, como? por quê?

-Criança!... disse ela. E passou a mão na testa. -Estás na aldeia e não vês as casas!

-Eu?!

-Sim tu!

E, assentando-se à beira da cama, para lhe ficar mais perto, continuou diminuindo o tom da voz:

-Pois não percebes, filho, que toda esta gente quer fazer de ti uma propriedade sua; que esta gente te considera um tesouro precioso e teme que lho furtem? Não percebes, meu Amâncio, que há aqui um plano velho, tramado para te fazer casar com Amelinha, isso porque és rico e, na tua qualidade de homem de espírito, pouca importância ligas ao dinheiro?!...

-Não! Dou-te a minha palavra em como, até aqui nada percebia de tudo isto!...

-Pois fica, então, sabendo que há uma grande conspiração contra ti ou, por outra, contra os teus bens!

-Ora essa! disse ele em voz baixa.

-Todos esses carinhos que eles ostentam, todos esses cuidados e desvelos, artísticos, são laços armados à tua ingenuidade!

-Estão bem arranjados!... respondeu Amâncio, -se esperam que eu case com Amelinha!

-Não sejas hipócrita!... acudiu a outra. -Tu gostas dela; não negues!

-Ah! gosto, não nego. Mas gosto, sem intenção de espécie alguma; gosto, coitada, porque ela nunca me fez mal, porque até lhe sou grato aos seus obséquios! Mas daí para casar!...

E, depois de um assovio de grande esperteza:

-Não é o meu tipo, o meu ideal. Demais, ainda não penso em casamento, nem sei se algum dia pensarei nisso!

-Por quê?

-Ora, respondeu ele -não vale a pena a gente se casar! Há por aí tanta desgraça, tanta decepção que, para falar com franqueza, não tenho ânimo...

-Julgas assim tão mal as mulheres?...

-Com franqueza, é exato, filha! Não digo que não haja mulheres virtuosas; isto, porém, é tão raro!... Prefiro não arriscar!...

-Desconfio de tanto ceticismo na tua idade!

Ele agitou os ombros.

-Um homem com esses princípios é incapaz de amar... ajuntou ela.

-Tens em mim a prova do contrário... retorquiu Amâncio sorrindo.

-Em ti?...

-Sim, e sabes disso perfeitamente!

-Disso, o quê?

-Que te amo...

-Não creio...

-Nesse caso, o cético não sou eu!

-Se me amasses, já mo terias provado...

-Provado?

-Está claro. Não acredito nesse amor cauteloso e metódico, que de tudo se arreceia, que se não quer expor, que tem calma para medir todas as conveniências, que teme os olhares, os ditos, as considerações de todo o mundo, que vem finalmente muito mais da cabeça que do coração!

-Não creditas, então, que eu te ame?...

-Não, decerto! Não te crimino por isso!... És ainda muito criança, para sentires o verdadeiro amor, a verdadeira paixão. Essa que não conhece obstáculos; que tudo pode e tudo vence; que é capaz de todos os sacrifícios, sejam do bem ou sejam do mal; essa que levanta os grandes crimes ou os grandes heroísmos! Amar, tu! E porventura saberás ao menos o que é o amor?! Algum dia experimente, por acaso, o ciúme, o desespero, a loucura, a que nos conduz o objeto amado! Não! Não queiras amesquinhar o único sentimento que até hoje se tem conservado puro! não queiras amesquinhar a coisa única respeitável que resta sobre a Terra! Para que possas falar a esse respeito, primeiro é necessário que ames! é preciso que dês alma, vida, futuro, esperanças, tudo, a uma mulher! é preciso primeiro que te esqueças de teus sonhos mais queridos, de tuas melhores aspirações, para só cuidares nela viveres dela e para ela! Então, sim! eu acreditaria em ti!

E Lúcia apoderou-se novamente das mãos de Amâncio, e as palavras borbulharam-lhe com mais febre:

-Amor é o que sinto por ti, entendes?! Amor é o que me faz esquecer a minha responsabilidade, o meu destino, o meu dever, para estar aqui a teus pés, alheia a tudo, esquecida do passado, descuidosa do futuro; só para te ver, só para te ouvir, só para me saturar toda de tua presença!...

-Entretanto... disse Amâncio, procurando afinar a voz pelo tom enfático com que falava a outra -entretanto, nunca me permitiste fruir contigo os verdadeiros e mais saborosos proveitos do amor! Tiveste a cruel habilidade de transformar um manancial de gozos em fonte perene de tormentos e dissabores! Se me amas, digo-te eu agora, porque evitas a todo transe que eu vá além dos nossos beijos?... Se me amas, por que impões o suplício do teu rigor? Ah! eu só acreditaria na sinceridade de tais protestos se fosses mais generosa comigo...

-Não! não! contrapôs ela, abraçando-o. -Nunca faltarei aos meu deveres! nunca trairei meu marido! Sou capaz de uma loucura; não, porém, de uma infâmia! Seria capaz de fugir contigo, abandonar tudo por tua causa; mas introduzir-te covardemente na minha alcova, nunca! Aceitaria um crime, sim! mas havia de aceitá-lo sob todas as responsabilidades, com todas as conseqüências, que ele viesse a produzir! Seria tua, mas não enganando a outro; seria tua, mas toda, inteira, lealmente! Abandonaria por tua causa meu marido; antes, porém, de o fazer, dir-lhe-ia com franqueza: «Fulano! Amo um outro! Não posso continuar ao teu lado, sem que te engane todos os dias e a todos os instantes! Por isso -vou! Amaldiçoa-me, se quiseres, mas não perturbes a minha felicidade!» Deixaria de ser esposa, para ser concubina! Trocaria meu nome, minha posição, por algumas horas de delírio, por algumas horas de sonho; mas, em todo o caso, a consciência nunca me acusaria, o coração jamais se teria de maldizer!

-Vês?! disse ela, esfolegando cansada de falar. -É por isso que até hoje me tenho portado deste modo contigo; é por isso que domo os meus impulsos e os meus arrebatamentos! -Sou de outro, não me possuo, não posso dispor disto!

E sacudia todo o corpo, com uma obstinação provocadora e canalha.

Amâncio olhava para ela, mordendo os beiços:

-Se é verdade que me queres possuir... disse a intransigente, depois de uma pausa em que se ouvia a respiração dos dois. -Arranca-me das mãos de meu marido e leva-me para onde bem quiseres, faze de mim o que entenderes! Serei tua amante, tua companheira, tua escrava; serei tudo que ordenares, contanto que eu tenha comprado com o risco de minha vida a felicidade de nós ambos!

E Lúcia, agitando romanticamente os cabelos, que ela por cálculo trazia soltos essas noites, perguntou com ímpeto:

-Compreendes agora a minha reserva?! Compreendes que, apesar de minhas reclusas, eu te adoro, meu Amâncio, meu amor, minha vida?!

-Entretanto, acrescentou ela, quando se convenceu de que Amâncio não queria cair no laço -tenho fatalmente de abafar todos os meus sentimentos, tenho de calcar todos os meus desejos, porque amanhã nos separamos.

Amâncio ergueu-se, pasmado.

-Como nos separamos?... interrogou.

-Eu amanhã retiro-me desta casa... esclareceu Lúcia, sem erguer os olhos. -Vou, e ainda nem sei para onde! Mas não posso deixar de ir: manda-me a dignidade que aqui não fique nem mais um instante!

-Como assim? explica-te!

-Oh! não me perguntes nada! Não me perguntes nada, porque só o que te posso afirmar é que esta súcia... E indicava o andar debaixo com um gesto trágico. -Esta súcia, receosa de que eu te dispute à Amelinha, obriga-me a sair, obriga-me a separar-me de ti! Ah! os miseráveis sabem o quanto eu te amo meu Amâncio! Temem que eu seja um estorvo ao teu casamento com ela.

-Mas, filha, como te podem eles constranger a sair?...

-Não me obrigues a falar, por amor de Deus! Eu não quero, não devo dizer mais nada!

-Ora! Isso não é generoso de tua parte! Se não podes usar de franqueza, para que então me excitas deste modo a curiosidade?

-Não! Não te posso dizer mais nada! Repele-me, se assim entendes, manda-me embora, mas, por piedade não me obrigues a corar em tua presença!...

-Corar em minha presença?... Não entendo, filha! Fala por uma vez. Abre o coração!

-Nunca! nunca!

-Mas é que tu me torturas, Lúcia!

E acarinhando-a:

-Vamos! não sejas criança, fala com franqueza... Dize o que te fizeram! Não acreditas então que sou teu amigo? teu amiguinho? Não crês que representas em minha vida uma preocupação constante, um sonho, uma esperança?...

-Sim, sim, acredito, meu amor, mas não mo obrigues a tratar de coisas, nas quais ainda não tenho o direito de te falar!...

-Ora! que segredo pode ser esse, tão negro, tão repugnante, que não mo queiras dizer?... É preciso que eu mereça muito pouco da tua confiança!...

-Não, não é isso, mas é que me falta o ânimo para confessá-lo... Mudemos de conversa...

-Não queres dizer? Bem! Acabou-se!

-Oh! não me fales desse modo, meu querido!

-Então dize o que é.

-E prometes que não me acharás ridícula?... prometes que a revelação do que te vou dizer não me amesquinhará aos teus olhos?...

-Juro!

Lúcia tirou uma carta do seio e entregou-a ao estudante.

Logo que este principiou a leitura, ela cobriu o rosto com as mãos, como para esconder a vergonha.

Amâncio leu o seguinte em voz baixa:

«Sr.ª D. Lúcia Pereira. Há quatro dias que entreguei a seu marido uma segunda conta do mês passado e deste mês, e, visto que até agora não tenho recebido senão desculpas e promessas, tomo a liberdade de participar-lhes que, de hoje em diante, não posso continuar a lhes oferecer comida e que preciso urgentemente de cômodo ocupado pela senhora e seu marido. Espero, pois, que até amanhã esteja o quarto n.º 8 desembaraçado e a minha conta selada e assinada pelo Sr. Pereira; sem o que, pesa-me dizê-lo, não consinto que VV. SS. levem consigo a sua mulata, que é o único bem de que posso lançar mão para garantir a dívida.»

Estava assinado por extenso o nome de João Coqueiro.

Amâncio dobrou a carta silenciosamente, ao passo que Lúcia continuava a esconder o rosto.

-Em quanto importa?... perguntou ele depois.

Ela conversando uma das mãos nos olhos, tirou com a outra a conta do seio, e passou-lhe, sem dizer nada.

-«Quatrocentos e sessenta mil-réis», leu o moço para si. E fez um trejeito com os olhos.

Lúcia, ao lado, soluçava, sempre de rosto coberto.

Amâncio pensou um instante, e disse:

-Não te aflijas... Eu posso, se quiseres, arranjar o dinheiro para amanhã...

Ela, então, descobriu a cara e, sem uma palavra, abraçou-se ao rapaz e começou a chorar.

-E hoje, perguntou ele, quando Lúcia já se dispunha a sair -hoje mereço um beijo?...

Ela correu para Amâncio, sorrindo, e com os olhos fechados, estendeu-lhe os lábios.

O estudante, com as duas mãos abertas, segurou-lhe a nuca e principiou a sorver o «seu beijo», demoradamente, voluptuosamente, como se estivesse bebendo por um canjirão.

Lúcia, porém, ao perceber que a coisa se demorava muito, arrancou a cabeça das mãos do rapaz e fugiu.

***

Às nove horas da manhã subseqüente, voltava Sabino da casa de Campos com a resposta de uma carta em que o senhor-moço pedia o dinheiro necessário para satisfazer as dívidas de Lúcia.

João Coqueiro ficou assombrado quando recebeu a quantia; correu logo em busca da mulher.

-Sabes? disse, assim que a viu. -Pagaram!

-Hein?! fez Mme. Brizard, com espanto. -Pagaram?! Tudo?!...

-Integralmente! Cá está o cobre!

E, depois do silêncio da admiração:

-E que te parece, a ti, hein, Loló?!...

-Parece-me bom... A metade está feita; agora já não se trata de receber-lhe a conta, é só de os pôr fora de casa!

-Sim... mastigou o marido -mas agora também é mais difícil fazê-los desarvorar! Já não temos um pretexto para isso!...

-Pretextos não faltarão... respondeu a francesa, e acrescentou: -O que me faz cismar é este dinheiro arranjado assim à última hora... porque eles, ainda ontem, estavam bem apertados e Pereira não arredou pé de casa durante o dia!

O marido refletiu um instante, e depois exclamou, com vislumbres de quem se sente roubado:

-Ora, querem ver que aquela raposa arrancou estes cobres ao Amâncio?!...

Mme. Brizard confirmou o alvitre com um gesto de cabeça.

-E olha que não é outra coisa! repetiu Coqueiro. -Que hoje Sabino, desde muito cedo, tinha já que fazer à rua!

-Ora essa!... resmungou Brizard, indignada e ressentida, como se aquele desfalque na carteira do estudante lhe trouxesse um prejuízo imediato. -Ora essa!...

-Mas deixa estar que hei de saber de tudo!... prometeu o locandeiro.

E, com efeito, daí a pouco o próprio Sabino lhe confessava que fora pela manhã à casa de Campos levar uma carta e que voltara com outra, recheadinha de dinheiro em papel.

O locandeiro revoltou-se, mas a sua indignação subiu verdadeiramente ao cúmulo, foi quando lhe constou que o bom do Amâncio, para ter ocasião de estar mais a tempo com Lúcia, recorria a todos os meios e modos de afastar Amélia do quarto.

-Diz que não quer ser importuno, contou a rapariga -que já bastam os incômodos que me tem dado, que não se acha com o direito de fazer de mim uma irmã de caridade, e de obrigar-me a suportar as suas amolações! E que eu viesse aqui para baixo, rir e conversar com os outros, que ele teria nisso muito mais prazer!

-E tu, que lhe disseste? perguntou o irmão.

-Eu disse que sentia o maior gosto em prestar ao Sr. Amâncio aquela insignificância de serviço; que, se os fazia, era por motu próprio!

-E ele?

-Ele disse que não, que não admitia, e que ficava até muito contrariado, se eu não me viesse embora!

-Vês?! perguntou João Coqueiro à esposa, apontando para a irmã. -Vês?! Tudo isto é obra da Sr.ª D. Lúcia!

E, depois de uma pausa, aflita:

-Aquela mulher não nos pode ficar em casa! Haja o que houver preciso que ela se vá daqui quanto antes!

E deu a sua palavra de honra em como havia de pôr cobro a semelhante patifaria.

Não sossegou essa noite. Enquanto os mais dormiam, andava ele lá por cima, a farejar nas trevas, grudando-se contra as paredes e escondendo-se pelos cantos.

Passou assim algumas horas; mas, afinal, viu Lúcia sair do quarto, pé ante pé, atravessar a medo o corredor e sumir-se, às apalpadelas, na porta do n.º 6.

A sua primeira idéia foi chamar Pereira e mostrar-lhe a mulher no latíbulo do amante, mas considerou que o homem seria capaz de romper com ela e, nesse caso, a ligação de Lúcia com o provinciano tornar-se-ia inevitável! -Nada! pensou ele. Deixemo-nos disso.

Mas, também, não convinha esperdiçar uma questão tão boa para desmascarar a velhaca.

Encaminhou-se, pois, na direção do quarto do estudante. Lúcia, ao sentir que alguém se aproximava, correu a fechar a porta por dentro, e fez sinal de silêncio ao enfermo.

Coqueiro parou defronte do n.º 6 e bateu.

-Quem é? perguntou Amâncio, no fim de pequena pausa, com a voz levemente alterada.

-Sou eu, disse o outro. Precisava dar-te duas palavras... como vi luz no quarto...

-Desculpa! respondeu o doente. -Mas agora não me posso levantar. Até logo!

-Boa noite! resmungou o dono da casa, e afastou-se.

Lúcia fingiu-se muito assustada com aquilo: -Coqueiro, se veio ali, foi para mostrar que sabia de tudo! Naturalmente espiara pela fechadura!

E pendurou logo uma toalha na chave.

-É o que se chama ter fama sem proveito!... observou Amâncio, a quem as negaças da mulher de Pereira já impacientavam.

-Está em tuas mãos!... volveu ela. -Já te expus com franqueza as circunstâncias...

-Tira-te do marido...

-Está claro!

-Isso por ora é impossível... Mais tarde, não digo que não, mas por enquanto...

-É porque não me amas, disse a ilustrada senhora, abaixando os olhos.

-Se te amo, minha vida! se te amo!...

E ameigava-a, procurando beijá-la.

Ela fugia com o rosto, dizendo aflitivamente que preferia nunca o ter visto. «Antes de conhecê-lo, ainda conseguia suportar o marido abominável a que a prendera o destino, mas, depois que fantasiara a possibilidade de viver com Amâncio, de possuí-lo, todo, sem que outra o disputasse, não mais podia entestar com a miserável existência que levava e com os dilacerantes sacrifícios que lhe cumpriam!»

Dito este fraseado, foi-se do quarto, como das outras vezes, a fazer-se rogada, a medir os beijos que dava, a prometer que não voltaria mais, se Amâncio persistisse nas costumadas exigências.

-Ora bolas!... praguejou este, quando se achou só. -Desta forma é melhor mesmo que não venha! Põe-me neste estado e afinal musca-se, ainda por cima emburrada! Gaitas!

Mas a idéia de que aquela resistência talvez não durasse mais do que o tempo da moléstia o consolava em parte. -Sim, porque, em ficando bom, as coisas seriam de outro feitio! Tinha graça que ele estivesse a pagar contas de quatrocentos e tantos mil-réis, só para desfrutar a certeza de que a Sr.ª D. Lúcia o amava com todo o ardor de que é capaz uma alma pura e apaixonada! Qual! Por semelhante preço preferi não ser amado!

E adormeceu, impaciente por sair da moléstia e entrar no gozo da felicidade que ele acabava de pagar adiantado, como se abrisse para todo o ano uma assinatura de amor.

A ilustrada senhora conseguira o que esperava: as suas negaças faziam-na mais desejada pelo rapaz e davam-lhe, aos olhos deste, irresistíveis fascinações de coisa proibida.

Certas mulheres, quando se negam, estão como a onça recuando para melhor armar o salto sobre a presa.

***

Logo pela manhã do dia seguinte, já Coqueiro se apresentava no quarto do provinciano, mas com o aspecto muito ressentido, os gestos duros, o olhar cheio de recriminações.

-Então, ontem à noite, tinhas aqui a Lúcia?... inquiriu de chofre, depois de cumprimentar Amâncio secamente.

O interrogado fez uma cara de espanto.

-Não podes negar! Eu a vi sair!...

-É exato, respondeu o doente, franzindo as sobrancelhas.

-Há, porém, de permitir que eu te diga que andaste muito mal!... repontou Coqueiro. -Tens de concordar que eu não posso, nem devo consentir em casa semelhante coisa!

E foi até a janela, olhou a rua pelas vidraças. Amâncio não dava uma palavra.

O outro voltou, muito comprometido:

-Isto aqui é uma casa de família! Sabes perfeitamente que temos conosco uma menina solteira -uma virgem! Não é por mim, nem por ti, nem tampouco pela Lúcia; mas é por ela, sebo! por -minha irmã!- ça quem sirvo de pai! é por minha mulher, é por minha enteada e pelo menino, é pelos hóspedes enfim!...

-Pois acredita que não houve nada demais!... balbuciou Amâncio.

-Não, filho, tem paciência! Lá fora o que quiseres, mas daquela porta para dentro, não admito, nem posso admitir!... E passeando pelo quarto com as mãos nas algibeiras: -Que diabo! Eu te preveni!...

-Ora o quê! resmungou Amâncio, indignado com a hipocrisia do colega, mas sem coragem para dizer o que sabia a respeito dele e dos costumes da casa. -Não abro o exemplo!... acrescentou.

-O que queres dizer com isso?

-Quero dizer que sei, tão bem como tu, que aqui nem todos são santos!...

-Não te percebo...

-E é melhor justamente que não percebas...

Mas, como o outro ainda se quisesse fazer de desentendido, ele declarou, frisando as palavras, que nem sempre ficava a dormir no quarto durante as noite e que então enxergava, às vezes, melhor do que mesmo de dia... E falou indiretamente nas entrevistas do médico do n.º 11 e no que sabia do próprio Coqueiro com referência à mucama.

-Olha! concluiu: -O que te posso afiançar é que a mulher de Pereira só vem aqui ao quarto depois que me acho doente, e, longe de ser com mau fim, coitada, é até com muita boa intenção! -Entra, cavaqueia um pouco, dá-me a tomar o remédio e assim como veio se vai embora, entendes tu?!

-Não há dúvida... gaguejou o hoteleiro, cuja fúria se esvaziara de repente às bicadas do outro, que nem um balãozinho de borracha. -Não há dúvida que tu és incapaz de cometer qualquer leviandade dentro de uma casa de família; mas, a questão são as aparências, são as más-línguas, são os outros hóspedes! Não os conheces, filho! Nenhum deles acreditará que Lúcia venha ao teu quarto só para te dar o remédio e meio dedo de palestra!... Sei perfeitamente que isso é exato, basta que o digas; eles, porém, não terão a mesma boa fé! muito mais sabendo, como sabem, de quanto é capaz aquela sujeita! Logo quem!...

-Oh! interjeicionou Amâncio. -Uma senhora casada!...

-Casada o quê!... Da missa não sabes nem a metade!

-Ela, então, não é casada com Pereira?...

-Nunca o foi! com ele, nem com pessoa alguma! Conheço até a mulher do Pereira, a legítima -uma velhusca, de óculos, gorda, com um olho agachado, cheio d'água. Mora na Rua da Pedreira.

Amâncio estava tão pasmo quanto indignado; aquela denúncia do colega produzia-lhe o mau efeito que experimentado ao dar por falta do relógio. -Pois o demônio da mulher nem ao menos era casada?... Ele, então, que diabo de papel representara?!...

-Cínica! disse em voz alta.

-Ora! fez o outro. -Não trates de abrir os olhos e dir-me-ás depois as conseqüências!...

No Rio de Janeiro, prosseguiu -havia muito artista daquela força! Amâncio precisava acautelar-se, se não queria ser esfolado completamente. Lúcia o que desejava era agarrá-lo para amante: farejava-lhe os cobres! Ele, porém, que não fosse tolo! que se não deixasse fisgar por uma tipa de tão baixa espécie!

O provinciano jurava que, até ali, jamais conseguiria coisa alguma das mãos dela.

-Isso sei eu!... tornou Coqueiro, com um riso de velha experiência -isso não é necessário que me digas, porque já conheço a tática das Lúcias! Negam-se, fingem-se difíceis, para valer mais! Quer obrigar-te a cair, toleirão!

-Está bem aviada! exclamou Amâncio, justamente como ainda na véspera havia respondido à Lúcia, quando esta lhe falou a respeito de Amélia.

Ainda nesse dia Coqueiro aproveitou a ocasião em que Pereira fazia a sesta e foi se entender com Lúcia.

Disse-lhe o que sabia a respeito das visitas noturnas ao quarto de Amâncio e declarou terminantemente que não estava disposto a consentir em casa semelhantes escândalos. Ela, que tivesse paciência, mas fosse tratando de fazer as malas e cuidando de pôr-se ao fresco, se não queria sofrer alguma decepção maior!

A ilustrada senhora ficou lívida, e disparou sobre o locandeiro o mais terrível dos seus olhares. Uma cólera massuda principiou a entupir-lhe a garganta. -Não queria acreditar em tamanho atrevimento!

É! gritou por fim, trincando as palavras. -Você põe-me fora de casa, porque tem medo que eu lhe tome o amante da irmã!

-Insolente! bradou Coqueiro, avançando um passo.

-Não te tenho medo, ordinário! retrucou Lúcia empinando o peito contra ele. -Sairei daqui se bem quiser! Não te devo nada, entendes tu?! Nada!

-Ah! Não deve porque ele pagou!

-E que tem você com isso?! Que tem você com o dinheiro dos outros?! Ou, quem sabe se a donzela da irmã passou-lhe procuração!...

-Seja lá pelo que for! eu é que não a quero aqui, nem mais um instante. É fazer a trouxa e -rua!

-Também não preciso ficar nesse bordel! exclamou ela, e rabanou com direção ao segundo andar.

-Que diz você, sua aquela?! assistiu Mme. Brizard, cortando-lhe o caminho.

-É isso mesmo! respondeu Lúcia, escarrando no chão com desdém. E as duas mulheres ficaram alguns segundos a olhar em silêncio uma para a outra, de mãos nas cadeiras.

Coqueiro e Dr. Tavares meteram-se entre elas.

Lúcia subiu ao n.º 8, aprontou as malas num abrir e fechar de olhos, em seguida vestiu-se para sair, e já de chapéu, a sombrinha na mão, o indispensável enfiado no braço, correu ao quarto de Amâncio.

-Sabes? bradou logo ao entrar, empurrando a porta com fúria. -Aquela bêbada e o marido acabam de me enxotar daqui por tua causa! Têm medo que eu te coma! Não posso ficar nem mais um instante! Desejo que me emprestes o Sabino!

-O Sabino estava às ordens, mas para onde se atirava ela com tanta precipitação?

-Não sabia! Havia, porém, de encontrar um canto, onde se metesse! Havia de descobrir um buraco, ainda que fosse no cemitério!

E Lúcia levantou os punhos até às fontes, como para se esmurrar, mas cobriu o rosto com as mãos e abriu num pranto muito nervoso. Era a reação que chegava.

Amâncio saltou da cama e correu para ela. Desembaraçou-a do chapéu, da bolsa e da sombrinha e puxou-a depois sobre si.

-Não te consumas... disse -não te mortifiques desse modo.

-Sou uma desgraçada! respondeu a mulher, assoando as lágrimas. -Nada se cumpre do que eu desejo! Nada! O melhor é dar cabo desta vida miserável!

E soluçava com o rosto escondido no peito do rapaz.

Na febre daquele choro agitado, os seus movimentos transformavam-se em carícias. Amâncio sentia-lhe as lágrimas quentes e o contato carnal dos lábios, que elas ensopavam. Os desejos assanhavam-se-lhe de novo pelo corpo, como insetos que voltam com o calor.

E tornava a cobiçá-la com os mesmos ardores primitivos.

-Não me queria separar de ti... queixou-se ela, afinal, virgulando as suas frases com soluços suspirados. -Em ti havia firmado todas as minhas esperanças de ventura, todos os sonhos de minha vida! Amava agora a existência, só porque alguma coisa me fazia acreditar que ainda um dia seríamos felizes!...

-E por que não havemos de ser?... perguntou Amâncio condolentemente.

-Ora!... prosseguiu ela -tudo me persegue, tudo me sai contrário... Foi bastante que eu te amasse, foi bastante pensar que poderíamos ser um do outro, para que aqui se levantassem todos contra mim e ferissem a guerra que tens visto!

E, desagarrando-se de Amâncio, para segurar de novo a cabeça, num movimento de embaraço doloroso:

-Mas, imagina tu, que estou inteiramente sem recursos!... Tenho que fazer a mudança e ainda não sei como pagar o carreto das malas!... Vê tu que situação, que triste situação!

Amâncio beijou-a na boca e perguntou se ela não lhe dava uma esperançazinha para depois que se mudasse.

Lúcia respondeu que dava, não uma esperança, mas «uma certeza». E, sem desprender os lábios dos lábios do rapaz, afiançou -que lhe mandaria dizer por escrito o lugar onde seria encontrada; e que ele fosse por lá as vezes que entendesse. -Aí ao menos estariam livres de Coqueiro e das outras pestes!

-Prometes então?... insistiu ele, procurando garantir o compromisso.

-Prometo, prometo o que quiseres, tudo! disse ela, ainda chorosa.

Amâncio foi à algibeira do fraque, abriu a carteira. Havia trezentos mil-réis, tomou uma nota de cem e entregou-a a Lúcia, dizendo com pesar que era o único dinheiro que possuía na ocasião.

-Talvez te façam falta... considerou ela escrupulosamente, sem querer tocar na cédula.

-Não! não! apressou-se a declarar o rapaz. -Desculpa não te poder ser mais agradável.

Lúcia beijou-o de novo, e desceu enfim ao primeiro andar, acompanhada pelo Sabino que já estava à sua disposição.

Ordenou ao moleque de buscar, num pulo, uma carrocinha, e logo que esta chegou fez embarcar as malas e mandou chamar uma carruagem.

Enquanto esperava, reclamou a sua conta, atirou com o dinheiro sem olhar para quem o recebia, embolsou o troco e, em seguida, foi acordar Pereira.

-Onde vamos? perguntou este entre dois bocejos, assim que a viu em trajes de sair.

-Venha daí homem! E deixe-se de perguntas!

Pereira levantou-se espreguiçando-se e acompanhou a mulher.

Esta o fez entrar na carruagem que já havia chegado, assentou-se junto dele e disse ao cocheiro que tocasse para a Tijuca. Deu-lhe o número.

Era o número de uma outra hospedaria nas mesmas condições da que deixavam. Lúcia, que já pressupunha aquelas rápidas mudanças, tinha por cautela, uma lista das principais casa de pensão da Corte e, à medida que se servia de cada uma, riscava-a da coleção. A de Coqueiro era no rol a sexta inutilizada com o traço enérgico de seu lápis.

Entretanto, ia Pereira silenciosamente se atufando nas almofadas e, aos balanços monótonos do carro, procurava reatar o sono interrompido.




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- XIII -

A casa de pensão de Mme. Brizard sofreu muito com as variolóides de Amâncio. Desmanavam-se hóspedes que era uma coisa por demais.

O gentleman, o Piloto e a pérola do n.º 9, «o estimável Melinho», desde a fatal noite das cataporas, não davam notícias suas. Fontes e a mulher sumiram-se logo no dia imediato, e, por conseguinte, não metendo o tal médico do n.º 11, que já não aparecia há bastante tempo, apenas seis hóspedes restavam dos quatorze primitivos.

E ainda mesmo destes seis nem todos eram aproveitáveis; porque Paula Mendes e mais a mulher levantariam o vôo, assim que lhes chegasse uma aragenzinha de dinheiro, e o estafermo do n.º 7 também estava a despedir-se por um daqueles dias, não da casa, mas do mundo.

Certos, só Amâncio, o guarda-livros e o esquisitão do Campelo que, fugindo ao pigarro do tísico, mudara-se para o andar de baixo, mal pilhara um cômodo desocupado.

Mme. Brizard estava, pois, inconsolável. -Em sua vida de hospedeira jamais tivera um mês tão ruim!

E azoinada por essas contrariedades e já de natureza um tanto supersticiosa, agora em tudo descobria sinais de mau agouro e motivos para desconfiança. -Pois se até o ilustre Sr. Lambertosa, «o respeitável gentleman, a flor dos homens finos, uma criatura tão cheia de circunspecção», quem o diria?... aproveitar ao ensejo das bexigas para lhe passar a perna!

E o Melinho? «o estimável Melinho! a pérola do n.º 9, o homem das frutas cristalizadas!» também não deixara as suas contas em aberto?...

Só o Piloto, o estúrdio, aquele de quem menos se esperava, aparecera três dias depois da fuga, perguntando, ainda muito escabreado, de quanto era a sua dívida.

-É mesmo caiporismo! gemia a francesa.

O marido, porém, soprava-lhe a coragem: -Ela que não desanimasse por tão pouco! Nem tudo se perdera! Enquanto tivessem o Amâncio não se podiam queixar da sorte; este valia por todos os outros!

Mas o precioso Amâncio não estava também muito satisfeito com a casa, talvez desconfiando que a esta coubesse em parte a responsabilidade daquele maldito reumatismo que ora parecia extinto e ora o obrigava a guarda a cama, tolhido de dores.

À noite, quando lho permitiam as pernas, descia a cavaquear na varanda com os senhorios. Agora os serões tinham um caráter mais íntimo e eram freqüentemente animados com a presença de uma família, que voltara às relações de Mme. Brizard depois de seis meses de inimizade.

Tocava-se piano, jogava-se a víspora, quase todos os dias e, às vezes, se dançava.

A casa de pensão nunca ofereceu aos seus hóspedes um aspecto tão divertido; menos para o rabequista, Paula Mendes, que parecia cada vez mais triste e apoquentado da vida. A circunstância de já não comer à mesa de Coqueiro obrigava-o a desperdiçar muito tempo com o restaurante e dificultava-lhe a subsistência da mulher, cujo mau humor ia se azedando ao peso de tanta necessidade e de tanta humilhação. O infeliz marido conseguiu afinal que ela fosse passar alguns meses na companhia dos parentes em Niterói.

Mme. Brizard, ao vê-la partir, receou a premeditação de uma fuga e exigiu logo que Mendes, para garantir a dívida, hipotecasse o piano que tinha no quarto.

O pobre homem consentiu, sem dizer palavra, mas, de envergonhado, deixou de aparecer nos serões da sala de jantar.

E desde então, por alta noite, quando toda a casa era silêncio, Amâncio ouvia no corredor o som de passos trôpegos e um vozear confuso de alguém que monologava.

A casa de pensão, definitivamente, ia se tornando insuportável ao estudante.

Não podia sair à rua; o médico, havia quase um mês, jurara pô-lo pronto em quatro dias, se Amâncio não fizesse alguma extravagância; a conversa de toda a família Coqueiro, à exceção de Amelinha, o enfastiava; a leitura muito pouco o distraía, e, para complemento do enjôo, o maldito tossegoso do n.º 7, o qual por caridade entregara ele ultimamente ao seu médico, parecia morrer de cinco em cinco minutos e não lhe dava um momento de sossego.

Mas a causa principal desse tédio era, sem dúvida, a ausência de Lúcia. Desde que ela se foi, o coração do rapaz turgia de saudade; longe de esquecê-la, cada vez a desejava com mais sofreguidão.

As trevas da ausência faziam-na destacar melhor e mais linda, como um fundo negro a uma estátua de mármore.

Sentiu sobressaltos deliciosos quando recebeu a primeira carta das mãos dela. Era extensa, cheia de imagens poéticas e figuras de grande alcance amoroso; terminava dizendo «que Amâncio, logo que pusesse os pés na rua, a fosse procurar». O endereço vinha à parte, num pedacinho de papel.

-E não poder ir quanto antes!... Que espiga! considerou ele, sinceramente penalizado.

E cresciam-lhe os enjôos.

Só Amélia, com os estiletes da sua perceptibilidade feminina, conseguiu penetrar no âmago daquelas tristezas, mas não se deu por achada e redobrou os desvelos e meiguices para com ele.

Amâncio, por mais de uma vez beijou-lhe as mãos suspirando que ela era o seu bom anjo, a sua consolação única no meio de «tantos dissabores»!

Assim se passaram quinze dias. O apaixonado já a tratava por tu, por você, raras vezes por senhora.

Era a piedosa Amelinha quem lhe arrumava o quarto, quem lhe cuidava da roupa, e já por fim, era até quem lhe levava o cafezinho pela manhã. Mas não entrava, apenas metia o braço pela abertura da porta que ficava sempre encostada, depunha cautelosamente a xícara sobre o soalho, e, se Amâncio ainda dormia, gritava-lhe no seu falsete aprazível:

-Preguiçoso, acorde! são horas!

Depois, apanhava novamente as saias e descia a escada, ligeira e sem rumor.

Outras vezes, ao anoitecer, subia para lhe pedir um livro emprestado, para saber se ele queria o chá no quarto ou se preferia descer à sala de jantar. Sempre havia um pretexto para lá ir e, depois de lá estar, sempre arranjava um motivo de demora. Entretinha-se a ver o que se achava sobre a mesa; examinando tudo; lia a lombada dos livros, e brincava com um esqueleto que jazia pendurado a um canto do quarto.

Amâncio, de uma feita, não pôde deixar de rir, quando a encontrou muito espantada a examinar as gravuras de um tratado fisiológico de Vernier.

Estava, porém, mais e mais convencido de que toda aquela familiaridade e toda aquela confiança da rapariga procediam do modo e das maneiras respeitosas e fraternais com que ele, até ali, a tratara. E então, fazia por domar os seus impulsos luxuriosos, receoso de cair-lhe em desagrado.

Verdade é que, em grande parte, contribuía para esse estranho heroísmo de garanhão, não só a moléstia, como a ilimitada confiança que, muito propositadamente depositavam nele Coqueiro e a mulher.

Se Amélia e Lúcia trocassem os papéis, isto é, se aquela se negasse e esta se oferecesse, é de supor que Amâncio desdenhasse a última e ambicionasse a primeira.

Mas o Sr. João Coqueiro, apesar de tão fino, não calculou que, em naturezas viciadas como a de Amâncio, o mais forte estímulo para o amor é a proibição.

Embalde deixavam o rapaz horas e horas no salão, às voltas com a menina; embalde Mme. Brizard lhe dava a perceber o quanto era ele amado pela cunhada; embalde lhe chamava «coração de gelo»; embalde lhe preparava todos os laços. -Nada produzia o efeito desejado; Amâncio tornava-se cada vez mais respeitoso e mais frio em presença de Amélia.

Era para desesperar!

Uma ocasião, todavia, estava ele no quarto, de costas para a porta e muito entretido a ler defronte do gás, quando Amélia, pé ante pé, entrou sem ser sentida e, encaminhando-se contra o moço, tomou-lhe a cabeça nas mãos e cobriu-lhe o rosto de beijos.

Amâncio quis prendê-la, mas a rapariga não se deixou enlear, e fugiu, como um pássaro assustado.

***

O rapaz, então, nunca mais receou cair-lhe em desagrado. Mas o demônio do reumatismo lá estava erguido entre ele e a provocadora menina. A despeito do tratamento, as dores recrudesciam-lhe de vez em quando e assanhavam-se-lhe a bílis. Amâncio principiou a emagrecer, tomado de uma estranha prostração, muito assustadora. O médico aconselhou-o logo a que se mudasse para um arrabalde de bons ares, como Santa Teresa, por exemplo, e esta notícia produziu enormes sobressaltos na família dos locandeiros.

Mme. Brizard parecia ter um filho em risco de vida; Coqueiro declarou, cheio de dedicação, que não deixaria o «pobre amigo» ir assim desamparado para uma casa de saúde ou para um hotel; Amelinha choramingava ao lado da cama do enfermo, e, quando se achava a sós com este, beijava-lhe as mãos, afagava-lhe os cabelos e soluçava palavras de ternura.

Nesses dias Amâncio era assunto obrigado das conversas da casa. À mesa e durante os serões não se falava noutra coisa. Lembravam-se todos os expedientes: -uma mudança geral da família; alugar fora uma casinha e levá-lo a passeio até que se restabelecesse; abandonar a casa de pensão ou entregá-la aos cuidados de alguma pessoa de confiança.

Nada, porém, ficava resolvido. A conversa turbinava em volta do mesmo assunto, sem descobrir uma saída.

Nini era a única que parecia não ligar a mínima importância a tudo aquilo; de olhos muito abertos, sonâmbula, ouvia em silêncio as conversas da família, apenas suspirando de espaço a espaço.

Não obstante, já uma noite estava a casa recolhida, quando despertaram alarmados com o baque de um corpo que, entre medonhos gritos, rolava pela escada do segundo andar.

Acudiram todos, num levante.

-Que era?! Que acontecera?

Nini, coberta de sangue, jazia estendida sem sentidos ao sopé da escada. Rolara vinte degraus a partira a cabeça em dois lugares.

Ia fazer uma visita ao seu esquivoso enfermo, mas no patamar da maldita escada perdera o equilíbrio e baqueara desastradamente.

Tomaram-lhe as feridas a pontos falsos, friccionaram-lhe o corpo inteiro com aguardente canforada e deram-lhe a beber cerveja preta.

Supunham, todavia, que amanhecesse morta. Foi o contrário: Nini melhorou muito de seus antigos padecimentos e apresentou uma inesperada lucidez de idéias, como há muito não possuía. -O choque fizera-lhe bem e não menos o sangue que derramou da cabeça, afiançou o médico.

Aquele trambolhão era uma providência!

À noite, conversou-se bastante a esse respeito; vieram as amigas de Mme. Brizard; choveram os comentários sobre Nini; citaram-se as anedotas correlativas ao fato, e Amâncio, que se achava então mais desembaraçado das pernas, entendeu de sua obrigação fazer uma visita à pobre criatura.

Nini estava melhor que nunca: tranqüila; havia comido regularmente e mostrava-se até mais satisfeita e mais comunicativa; ao dar, porém, com Amâncio, que entrara no quarto com o seu risinho de boa amizade, abriu de repente a estrebuchar na cama, bramindo impropérios e atassalhando as roupas.

Para sossegar um pouco foi preciso que o rapaz fugisse o mais depressa de sua presença. E, desde então, a desgraçada não o podia ver, que lhe não voltassem logo as insânias e os frenesis.

Estabeleceu-se um cuidado enorme para evitar que os dois se encontrassem. Já não era permitido a Amâncio dar um passo fora do quarto, sem se precaver e indagar se Nini estava por ali por perto.

O médico declarou que um novo encontro exacerbaria os padecimentos da enferma e talvez lhe produzisse a loucura absoluta.

Mme. Brizard pranteava-se toda, quando lhe falavam na filha. -Era uma desgraça, dizia, com os olhos espipados pelo esforço que faziam -era uma grande desgraça! Antes Deus a levasse logo para si, coitada!

Um encontro, que Amâncio não pudera evitar, a despeito de suas precauções, deixou Nini em tal excitação nervosa, que o doutor proibiu que a consentissem fora do quarto. Ficou presa desde esse dia.

Malgrado a felicidade prevista ao lado de Amélia, o provinciano sentia já bastante desejo de se tirar dali. -Assim que estivesse bom!

Campos, em uma visita que lhe fez por essa ocasião, falou muito na generosidade com que se portara a família de Coqueiro durante a moléstia do rapaz. -Que aquilo era uma fortuna que nem todos abichavam! Citou principalmente as canseiras de Amelinha e concluiu declarando que, segundo o seu fraco modo de pensar, Amâncio tinha obrigação de fazer à menina um qualquer presente de valor.

Sim! porque, no fim de contas, era muito difícil encontrar aquilo nas casas de pensão! Outros foram eles, que Amâncio teria de pôr os quartos na rua! -Não. Inquestionavelmente, era preciso dar o presente!

E, depois de se concentrar numa pausa:

-Aí uma jóia de uns cem mil-réis... Que diabo! esse dinheiro não o faria pobre...

Mas o estudante, em voz discreta e abafada, confessou a Campos que a brincadeira não lhe havia saído tão de graça, como parecia à primeira vista: Só o mês passado gastara perto de seiscentos mil-réis, sem contar que Sabino vivia numa dobadoura, de casa para a botica e da botica para casa, e eram remédios para Nini, remédios para o tísico do n.º 7, água de flor de laranja para Mme. Brizard, xaropes para Coqueiro; um inferno!... E toda essa droga caía na sua conta! -E os dinheiros emprestados?... E as fitas, os botões, as linhas, as tiras bordadas, que Amelinha estava sempre a lhe pedir que mandasse buscar nos armarinhos sem nunca dar dinheiro para isso?... Não! Sr. Luís Campos não podia calcular o que havia! -Hoje cinco mil-réis, amanhã vinte! E, no tirar das contas, parecia que tudo isso, em vez de ser descontado, era aumentado nas suas despesas!... Que tal?! -Recebera obséquios, sim senhor! mas também puxara muito pela bolsa!

Campos ignorava aquelas particularidades... mas entendia que Amâncio, nem por isso devia menos obrigações à família de Coqueiro.

E ofereceu a «sua modesta choupana», caso o estudante não quisesse continuar ali.

Amâncio rejeitou, um tanto por se lembrar das esperanças que embalava a respeito de Amélia, um tanto por se não querer sujeitar ao regime do negociante e um tanto por mera cerimônia.

-Enfim, disse o marido de Hortênsia, despedindo-se -acho que o senhor deve fazer o presente e tratar logo de sair daqui; já não digo pela questão da despesa, mas porque lhe convém a saúde. Escolha um arrabalde de bons ares ou então dê um passeio a Petrópolis; o médico afiançou-me que o senhor tem ameaços de febre paludosa, e isso é o diabo na época que atravessamos: a febre amarela grassa por aí que não é brinquedo!

***

Logo que constaram as novas disposições de Amâncio a respeito de mudança, houve uma grande consternação por toda a casa.

-Deixar-nos? exclamou Mme. Brizard em sobressalto. -Não consentimos! Se para o seu completo restabelecimento é necessário um arrabalde, vamos todos para o arrabalde! Só -isso é que não! Seria até uma falta de humanidade, coitado!

E formou-se um zunzum de opiniões. Cochichava-se pelos cantos, em magotes, discreteando-se projetos em voz de mistério, como se tratasse de um moribundo. Coqueiro andava de um lado para outro, coçando deseperadamente a cabeça, gesticulando, à procura de um meio de conciliar os seus interesses.

Amélia, afinal, subiu ao quarto do doente, e, com uma aflição a quebrar-lhe a voz, toda a tremer, os olhos úmidos, perguntou se ele tencionava deixar a casa.

Amâncio, ignorando o que ia por baixo a seu respeito trejeitou uns momos de indiferença e respondeu: «que não sabia ainda ao certo... havia de ver!... mas que o médico lhe ordenara que fosse»...

Como se só parecesse por aquelas palavras, o pranto da menina irrompeu violentamente.

Ele, meio surpreso, a tomou nos braços, indagando com ternura «o que significava aquilo?»...

Amélia não respondeu logo, mas depois, levantando a cabeça, que lhe havia pousado no colo, exclamou entre soluços angustiados:

-Não! não! não hás de ir! peço-te que não vás!

O provinciano quis saber por quê.

-Eu te amo! disse ela, escondendo de novo o rosto. -Eu te amo e não posso me separar de ti! Vejo a tua indiferença! percebo que me detesta, mas que hei de eu fazer?! Adoro-te, meu amor!

-Ah! se eu não estivesse tão doente!... suspirou Amâncio.




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- XIV -

O tísico do n.º 7 há dias esperava o seu momento de morrer, estendido na cama, os olhos cravados no ar, a boca muito aberta, porque já lhe ia faltando o fôlego.

Não tossia; apenas, de quando em quando, o esforço convulsivo para arrevessar os pulmões desfeitos sacudia-lhe todo o corpo e arrancava-lhe da garganta uma ronqueira lúgubre, que lembrava o arrulhar ominoso dos pombos.

Contavam que expirasse a todo o instante. Amâncio cedera o seu moleque para lhe fazer companhia, e dos braços de casa era o único que lhe aparecia lá uma vez por outra.

Não é que espetáculo daquele aniquilamento lhe tocasse o coração, mas porque lhe mordiscava a curiosidade com esse frívolo interesse de pavor, que nos espíritos românticos provocam os loucos e os defuntos.

Uma noite, seriam duas horas da madrugada, o tísico gemeu com tal insistência que acordou o estudante. Amâncio levantou-se, tomou uma vela e foi até ao quarto dele.

Ficou impressionado. O homem estava muito aflito, debatendo-se contra os lençóis, no desespero da sua ortopnéia. A cabeça vergada para trás, o magro pescoço estirado em curva, a barba tesa, piramidal, apontando para o teto; sentia-se-lhe por detrás da pele empobrecida do rosto os ângulos da caveira; acusavam-se-lhe os ossos por todo o corpo; os olhos, extremamente vivos e esbugalhados, de uma fixidez inconsciente, pareciam saltar das órbitas, e, pelo esvasamento da boca toda aberta, via-se-lhe a língua dura e seca, de papagaio, e divisavam-se-lhe as duas filas da dentadura.

Não podia sossegar. O seu corpo, chupado lentamente pela tísica, nu e esquelético, virava-se de uma para outra banda, entre manchas excrementícias, a porejar um suor gorduroso e frio, que umedecia as roupas da cama e dava-lhe à pele, cor de osso velho, um brilho repugnante.

Faltava-lhe o ar e, todavia, pela janela aberta para o nascente, os ventos frescos da noite entravam impregnados da música de um baile distante, e punham no triste abandono daquele quarto uma melancolia dura, um áspero sentimento de egoísmo; alguma coisa da indiferença dos que vivem pelos que se vão meter silenciosamente dentro da terra.

O médico recomendara que lhe dessem todo o ar possível e lhe fizessem beber de espaço a espaço uma porção do calmante que receitara. Uma lamparina de azeite fazia tremer a sua miserável chama e cuspia o óleo quente. Havia um cheiro enjoativo de moléstia e desasseio.

Sabino dormia a sono solto no corredor. Amâncio acordou-o com o pé.

-É dessa forma que velas pelo homem? perguntou.

O moleque ergueu-se estremunhado e deu alguns passos, esbarrando pelas paredes, sem cair em si.

-Vamos! Desperta por uma vez e dá-lhe o remédio! Ele parece que tem sede!

O tísico, ao ouvir a voz de Amâncio, principiou a agitar os braços, como se o chamasse, grugulejando sons roucos e ininteligíveis.

O estudante não quis atender, mas o doente insistia com tamanho desespero, que ele, afinal, vencendo a repugnância, se aproximou, a conchear a mão contra a língua trêmula da vela.

Apesar de seus fracos estudos de medicina, fazia-lhe mal aos nervos aquela figura descarnada, que se exinania na impudência aterradora da morte; fazia-lhe mal aqueles membros despojados em vida, aquele esqueleto animado, que, na sua distanásia, parecia convidá-lo para um passeio ao cemitério.

E o tísico rouquejava sempre, agitando os braços.

O moleque, ao lado, derramava-lhe colheradas de remédio na boca; mas o líquido voltava em fios pelo canto dos lábios do moribundo e escorria-lhe ao comprido do pescoço e pela aridez escalavrada do peito.

Amâncio tomou-lhe um dos pulsos. O contato pegajoso e úmido fez-lhe retirar-lhe logo a mão com um arrepio.

-Qual, nhô, ele está assim a um ror de dias! Leva nisto e não decide!...

-Não! Creio que agora está morrendo...

E olhou para o doente.

Este espichou a cabeça e respondeu que não, com um movimento demorado.

-Ele ouviu?... perguntou Amâncio, impressionado com a intervenção inesperada do moribundo.

A caveira tornou a agitar-se nos travesseiros para dizer que sim.

-Olha!... fez o estudante arregalando os olhos. E aproximou-se da porta, recomendando ao Sabino que se não descuidasse da pobre criatura; que se não pusesse a dormir como ainda há pouco!

O tísico, que havia serenado alguma coisa com a presença do rapaz, principiou de novo a espolinhar-se, rilhando os dentes e agitando os braços e as pernas.

Amâncio, porém, não atendeu desta vez e saiu. O tísico rosnou com mais ânsia, procurando lançar-se fora do leito, numa aflição crescente.

-Fica quieto! gritou Sabino, obrigando-o a deitar-se.

***

Logo que o estudante se afastou com a vela, o quarto recaiu na sua dúbia claridade modorrenta. Os ventos frios da madrugada continuavam a soprar. O moleque foi até a janela, olhou a rua em silêncio, acendeu um cigarro e, quando viu que o seu homem parecia serenado, tratou de reassumir o sono.

O senhor é que não podia sossegar, com a idéia naquele pobre rapaz, que ali morria aos poucos, sem família, nem carinhos de espécie alguma; sem ter ao menos quem o tratasse, nem dispor de um amigo que se compadecesse dele.

-Infeliz criatura! pensava. -Além do mais, longe da Pátria, longe de tudo que lhe podia ser caro!

E, sacudido de estranhas condolências, imaginava o pobre desterrado saindo de sua aldeia em Portugal, atravessando os mares, atirado no convés de um navio, afinal no Brasil, neste país-sonho, a trabalhar dia a dia durante uma mocidade, e economizar, e sofrer privações; depois -falir, perder tudo de repente, achar-se em plena miséria e com a ladra da tísica a comer-lhe os pulmões! Oh! cortava a alma!

Não se podia esquecer do desespero com que o desgraçado o chamava, como se lhe quisesse pedir alguma coisa, fazer alguma revelação: -Talvez, quem sabe? até o tomasse, no seu delírio, por algum amigo; porque Amâncio se não enganava, chegara a distinguir-lhe balbuciar o nome de alguém -Não podia ser outra coisa, o mísero chamava por um amigo!

-Mas, também, que idéia, a sua, de andar por aquelas horas a visitar moribundos! Que diabo tinha ele, no fim de contas, com o tal tísico?... Ora essa!

O vulto esquelético não lhe saía, porém, de defronte dos olhos, com a sua ronqueira lúgubre, sempre a lhe estender os longos braços sem músculos e a rolar nas órbitas, convulsivamente, aqueles dois bugalhos luminosos.

Fechou a porta do quarto, despiu o sobretudo que havia enfiado, apagou a vela e assentou-se à mesinha diante de um livro.

O tísico gemia.

-Que maçada! resmungou Amâncio, sem se safar da impressão que trouxera do quarto «daquele diabo»! E cansava os olhos contra as páginas do livro, lendo sem compreender.

Vinham-lhe bocejos repetidos, ardiam-lhe os olhos. -Agora talvez dormisse. O importuno parecia sossegado, pelo menos não se lhe ouvia gemer.

Amâncio voltou à cama, sem ânimo de apagar a vela.

Quando estava quase adormecido, passos agitados no corredor o despertaram em sobressalto e uma pancada em cheio na porta fê-lo erguer-se de pulo e precipitar-se para ela.

Sabino, o tísico, vieram-lhe à memória. Ouriçaram-se-lhe os cabelos, enlixou-se-lhe a pele, e o coração bateu-lhe com mais força. -Que teria sucedido? A mão tremia-lhe ao forçar o trinco.

A porta afinal cedeu, e Amâncio sentiu cair desamparadamente no chão o corpo comprido e nu do tísico.

Estava horrível. Queria erguer-se, e em vão agitava as pernas e os braços. Amâncio tentou ajudá-lo, gritando ao mesmo tempo pelo Sabino. Os membros do tísico pareciam quebrar-se-lhe nas mãos, que escorregavam com a gordura fria do suor, e no soalho manchas de umidade desenhavam-lhe já o feitio do corpo.

O estudante desejava chamar por alguém. -Sabino dormia com certeza! -Peste! Fez um movimento para sair; mas o esqueleto agarrou-lhe violentamente os pulsos e pediu-lhe com uns vagidos dolorosos que ficasse.

De seus olhos corriam duas lágrimas compridas.

Depois de um esforço terrível, conseguiu falar. Eram sons apenas murmurados, fracos, quase imperceptíveis.

Amâncio tinha razão: o desgraçado, no delírio de sua fraqueza, o tomara por algum bom amigo. Suas palavras vinham-lhe aos lábios roxos impregnadas de confiança e de amor. Falava de coisas estranhas ao outro; perguntava-lhe por indivíduos desconhecidos para Amâncio e reprovava-lhe a culpa de não ter vindo mais cedo.

Depois referiu-se dolentemente a sua terra; tratou da infância, rindo, com os olhos cheios d'água. Pediu que Amâncio, logo que lá voltasse, fosse à procura do senhor padre, e encomendasse-lhe três missas.

Em seguida, fez um esforço para chegar ao ouvido do rapaz e começou, em ar de mistério, a ensinar-lhe um caminho longo, muito longo...Ensinava-lhe ruas, as voltas que era necessário fazer para chegar lá; afinal, dava-se com uma choupana. Uma velhinha entrevada fazia meia a um canto da casa. Amâncio que se aproximasse dela e lhe dissesse em segredo que o seu João, o seu querido filho...

Uma agonia violenta tolheu-lhe a fala. Ele ainda tentou dizer alguma coisa, mas o sangue purulento já lhe golfejava da boca e caía-lhe em jorro pelo corpo. Estirou-se todo, dobrou a cabeça para trás e, depois de entesar num estremecimento os membros rechupados, foi pouco a pouco cerrando os lábios e empenando o corpo com um gemido longo e sentidíssimo.

Lá fora, a música duvidosa continuava, ao longe, entristecendo.

Amâncio teve um assomo de cólera; seu temperamento nervoso e egoísta, revolucionava-se com o choque daquele incidente desagradável, que lhe dizia respeito e vinha-lhe todavia roubar despoticamente o sossego.

Logo que o tísico expirou, correu a acordar Sabino com um murro. O moleque levantou-se, como da primeira vez, e correu à cama do tísico. A lamparina bruxuleava sobre o velador, projetando em volta, pelas paredes, sombras que se iam dobrar no teto.

Sabino abismou-se ao dar com o leito vazio, olhou em torno, muito pasmo, chegou a levantar a colcha e a espiar para baixo da cama; depois correu à janela e interrogou a solidão fria da rua.

-Ué! Disse.

-És uma peste! gritou-lhe Amâncio. -Por tua causa o tísico foi morrer no meu quarto! Ande! Vá chamar Dr. Coqueiro ou alguém que trate do corpo! Aqui em cima, creio que não há ninguém, nem sequer o Paula Mendes.

O rabequista, com efeito, havia ficado essa noite em companhia da mulher em Niterói.

A notícia levantou embaixo um rebuliço. À exceção de Campelo e do guarda-livros, ninguém mais se conservou na cama.

Mme. Brizard arrepela-se, praguejando contra o maldito caiporismo que a perseguia ultimamente. -Até já lhe vinham os tísicos morrer em casa! Era demais!

Causou grande impressão a narrativa de Amâncio sobre os últimos momentos do homem. Dr. Tavares desfez-se em altas considerações a esse respeito. Coqueiro proibiu à irmã que subisse ao segundo andar, enquanto o cadáver não estivesse convenientemente amortalhado e deposto no sofá que às pressas se carregou para cima. Por toda a casa distribuíram-se fogareiros de incenso e alfazema. Sabino fora, de um pulo, buscar à botica uma garrafa de labarraque, e o copeiro saíra para lançar à primeira praia o colchão, os lençóis e os travesseiros que serviram ao defunto.

Descarregou-se o quarto. A francesa quis abrir um velho baú de folha, que jazia a um canto e que era o único objeto deixado pelo morto; mas Dr. Tavares opôs-se-lhe energicamente, citando artigos do código criminal e dizendo em tom de autoridade que o falecido era um súdito português e, por conseguinte, só ao cônsul de sua nação competia fazer-lhe o espólio dos bens!

-E o que nos ficou ele a dever?! E mais a despesa dos lençóis, do colchão e do diabo?! perguntou Mme. Brizard.

-Recebe-se do consulado português ou não se recebe de pessoa alguma, apressou-se a explicar Coqueiro, que já sabia perfeitamente não haver dentro do tal baú coisa alguma de valor.

O corpo saiu no dia seguinte, em um carro da misericórdia. E Amâncio declarou positivamente que não estava disposto a ficar na casa de pensão nem mais um dia.

-Pois então vamos todos para um arrabalde! -deliberou Mme. Brizard, em conseqüência dos repetidos conchavos que fizera com o marido.

Diabo era o estado de Nini, a pobrezita achava-se agora completamente desarranjada. Comia encostando a boca no prato, como um bicho; não trocava palavra com pessoa alguma e nem mais podia ficar em liberdade, porque de vez em quando lhe acometiam frenesis, que lhe davam para morder os outros e espatifar as roupas até ficar nua.

O médico entendia, porém, que com um bom regime hidroterápico, ela ainda podia restabelecer-se. Citou exemplos animadores, «bonitos casos», disse os belos resultados que ultimamente se obtinham por meio das duchas de água fria no tratamento das enfermidades nervosas, e terminou declarando que, só por esse meio, havia esperança de uma cura radical.

E o doutor, logo que esteve a sós com Amâncio, confidenciou-lhe, rindo:

-Já toquei à velha sobre aquilo que falamos; creio que desta vez fica o senhor livre da histérica!

Venceram-se, com efeito, os escrúpulos de Mme. Brizard e Nini foi para a Casa de Saúde do Dr. Eiras. A mãe teria notícias dela todos os dias e havia de lhe aparecer em pessoa duas vezes por semana.

-Aquela rapariga era o tormento de sua vida! Antes Deus a tivesse chamado para si! Agora, o que não seria necessário gastar com a tal casa de saúde?... talvez uns vinte mil-réis diários, se não fosse mais! Onde iria tudo aquilo parar? Era caiporismo, definitivamente!

Como desejavam, descobriu-se uma casa em Santa Teresa. Dr. Tavares e o guarda-livros acompanhariam a família; Campelo, o esquisitão, é o que não estava pela mudança. Logo que lhe falaram nisso, pediu secamente a nota de suas despesas, pagou-a, e retirou-se muito calmo, assoviando, de mão no bolso, cabeça erguida, na mesma fleuma inalterável com que costumava sair todas as manhãs para o trabalho.

Todo ele ia como a dizer no seu silêncio indiferente e egoísta: «A mim tanto se me dá seis como meia dúzia... morar com Pedro ou morar com Paulo, tudo para mim é a mesma coisa, desde que, em troca do -meu dinheiro -me apresentem um quarto limpo e a comida a horas certas. Se dez anos continuasse aqui Mme. Brizard, dez anos ficaria eu na Rua do Resende; mas, uma vez que se muda para Santa Teresa -adeus! vou bater à outra freguesia... o que por aí não faltam são casas de pensão.»

Paula Mendes, ao entrar pouco depois, recebeu um cheio a notícia de que a família Coqueiro ia deixar a casa e que, por conseguinte, era preciso que ele saldasse as suas contas.

Mas o rabequista não tinha dinheiro na ocasião. -Logo que o tivesse havia de pagar integralmente.

Os locandeiros não estavam por isso, já lhes bastavam os calos do gentleman e do Melinho! E, depois de uma troca agitada de palavras, Mendes propôs deixar o piano, ficando-lhe o direito de resgatá-lo mais tarde com a devida importância.

Mme. Brizard queria dinheiro e não instrumentos de música! O Sr. Paula Mendes que vendesse o piano e liquidasse depois as suas contas!

Assim foi. O rabequista saiu, e, quando à tarde voltou à casa de pensão, trazia consigo um homenzinho de barbas compridas, que fechou o negócio por quatrocentos mil-réis. Mendes pagou o que devia, fez tristemente as suas malas, e afinal se retirou de cabeça baixa e mãos cruzadas para trás.

César, que o fora espreitar no corredor, voltou à varanda, dizendo espantado que ele chorava ao descer as escadas.

-Deixa-o lá, menino! resmungou a locandeira, e tocou a sineta, chamando para a mesa.

O jantar já não tinha o caráter de uma refeição de hotel, em mesa-redonda. Agora compareciam apenas cinco pessoas: Amâncio, Amelinha, Mme. Brizard, Coqueiro, Cezar e Dr. Tavares. O guarda-livros, esse continuava a não comer em casa.

Mme. Brizard suspirava à vista dos lugares vazios. -Oh! Que aperto de coração lhe fazia aquilo! Não podia resistir a tanta contrariedade ao mesmo tempo!...

Pelo correr do jantar, falou a respeito de Nini, queixou-se de saudades. Já à sobremesa, recrudesceram-lhe as ternuras maternais, vieram-lhe nostalgias, uma lágrima saltou-lhe do olho esquerdo. Chamou César para junto de si, abraçou-o e beijou-o repetidas vezes e ficou a passar-lhe a mão pela cabeça. Um silencioso constrangimento se apoderou das pessoas presentes; depois, ainda com a voz quebrada de comoção, ela pediu ao Coqueiro que se não descuidasse de cobrar o que Lambertosa e Melinho ficaram a dever. -Agora precisavam muito e muito de dinheiro!...

Mudaram-se no dia seguinte. Amâncio ia muito incomodado, amanhecera pior, quase que não podia mexer com as pernas; todos lhe profetizavam, entretanto, rápidas melhoras em Santa Teresa. O cômodo que lhe destinaram era da casa o mais espaçoso e arejado.

Amelinha não o desemparava, já não escondia até os seus carinhos, chegava-se abertamente para o rapaz, como se fora casada com ele. Às vezes dizia-lhe segredos na presença do irmão ou da francesa; prestava-lhe pequeninos serviços amorosos: levantar-lhe, por exemplo, a gola do fraque, se fazia frio; abotoar-lhe o colarinho, se estava desabotoado; atar-lhe a gravata, se o laço se desmanchava; chegar-lhe para junto a escarradeira se Amâncio queria fumar.

Em Santa Teresa esses desvelos multiplicaram-se. Aí já era a menina quem lhe metia os botões na camisa e as fivelas no colete, quem lhe escovava a roupa e o chapéu, quem lhe punha o perfume no lenço e lhe dava corda no relógio, e, quando fazia bom tempo e o rapaz tentava um passeio pelo morro, era ela quem corria a lhe trazer a bengala ou o chapéu de sol, perguntando muito solícita se ele não se esquecera dos charutos e dos fósforos, se já tinha lenço, se levava dinheiro.

Mas, às vezes, resignava, quase que ralhava com o estudante. Fazia-lhe censuras, tomava-lhe contas de umas muitas coisas: Se Amâncio passara por tal rua, se estivera durante a ausência a passear sempre ou se encontrara alguém porventura em alguma parte; quando lhe sentia cheiro de álcool queria saber o que o rapaz bebera.

Amélia, enfim, se derramava por todo ele, sem Amâncio dar por isso; invadia-o sutilmente, como um bicho que entra na carne.

A nova residência punha-os muito mais juntos, muito mais unidos do que a da rua do Resende. Os quartos eram pequenos, chegados uns dos outros; havia um sótão com escadaria para a sala de jantar. Amâncio morava aí, sozinho.

Tinha de seu uma alcova e um pequeno gabinete de trabalho; janelas para o nascente e para o acaso, despejando sobre o jardim.

Embaixo, então, era a sala de visitas, a de jantar e mais quatro cômodos, sem meter os quartos da criadagem, a cozinha, a despensa e o banheiro. Num daqueles cômodos ficou João Coqueiro com a mulher; no outro Amelinha; no outro o guarda-livros, e Dr. Tavares no último.

A respeito da mobília, só se carregou da Rua do Resende a que era de todo indispensável. Não se vendeu sequer um objeto; o casarão renderia muito mais com os trastes e, além disso. Mme. Brizard contava, mais dia, menos dia, reabilitar a sua antiga e afamada casa de pensão. -Porque, dizia ela -era impossível que as coisas não voltassem ao estado primitivo!...

Coqueiro é que parecia, como nunca, satisfeito de sua vida. Cuidava da nova casa com muito interesse; falava em melhoramentos e aconselhava a Amâncio a que comprasse uma mobiliazinha catita para ver como «ficava então naquele sótão melhor que um príncipe no seu castelo».

A casa, de fato, convidava às fantasias do gosto, porque era perfeitamente nova e bem-feita; o papel das paredes estava imaculado, o chão limpo e os tetos virgens ainda de moscaria.

Amâncio experimentou rápidas melhoras; quis logo descer à cidade, mas Coqueiro não lhe permitiu ir só.

Aproveitaram o passeio para comprar a mobília. O provinciano recebera nesse mês dinheiro do Norte e retirara mais algum da casa de Campos; João Coqueiro levou-o a uma loja de trastes e escolheu ele próprio o que podia convir ao outro; isto é, uma cômoda, um lavatório, uma boa cama de casados, uma secretária, duas estantes, um velador e seis cadeiras; tudo de mogno e trabalhado a gosto moderno.

Estes arranjos pediam outras coisas; escolheram-se também dois quadros para o intervalo das portas, um belo espelho de parede, um relógio de pêndulo, tapetes, capachos e escarradeiras.

***

Coqueiro, muito empenhado na condução dos trastes, havia-se afastado alguns passos de Amâncio, quando este sentiu baterem-lhe no ombro.

Era Paiva Rocha.

-Oh! exclamou, satisfeito com o encontro. -Como vais tu? Há quanto tempo não nos vemos!... Que é feito de ti?

-Ai, filho, apoquentado! respondeu Paiva. Ultimamente tem sido uma enfiada de coisas más!... Há dois meses que não recebo dinheiro do correspondente; tinha aí um lugar de revisor numa folha e os ladrões passaram-me a perna em mais de duzentos mil-réis; além de que, a besta do diretor lá da escola lembrou-se agora de exigir uma infinidade de maçadas e obrigar-nos a despesas impossíveis! O diabo!

E, mudando de tom, perguntou como ia Amâncio; onde se metera, que ninguém o via?

O outro prestou contas de sua vida, expôs os pormenores de sua moléstia, falou nos incômodos que dera à família de Coqueiro, principalmente D. Amélia, que, por sinal, era uma excelente menina.

-Maganão!... disse o comprovinciano, esbarrando-lhe intencionalmente no braço.

Amâncio repeliu com febre aquela insinuação. O colega fazia uma tremenda injustiça, tanto a ele, Amâncio como à pobre rapariga!

-Ora, filho! Queres tu agora dizer a mim o que é a gente do Coqueiro!...

Amâncio abriu grandes olhos.

-Morde aqui! acrescentou o outro, apresentando-lhe o dedo.

E em troca de um gesto negativo do amigo:

-Não queres falar por ora, e fazes tu muito bem! Mas é impossível que a tua ingenuidade chegue ao ponto de tomares a sério a irmã de Coqueiro -a Amélia dos camarões!...

-Juro-te que, até aqui, só a tenho tratado com todo o respeito!

O outro soltou uma risada.

-É fato! insistiu Amâncio, aborrecido já com aquela troça do companheiro, mas ao mesmo tempo feliz por imaginar que as suas esperanças sobre a rapariga eram perfeitamente justificáveis.

-Pois, se é fato, acredita que tens representado um papel de tolo! Fazem-te a barba, filho!

Amâncio, então, para provar a pureza de sua conduta, pintou o estado em que se achara ultimamente -entrevecido de reumatismo, sem préstimo para nada. E contou o que sofrera com as bexigas.

-Ora, dize-me cá... volveu o outro em tom de segredo. -Coqueiro já te não tem dado algumas facadinhas... Confessa...

Amâncio, nem só confessou, como disse até o dinheiro que por várias vezes emprestara ao senhorio.

-Hein?! bradou Paiva, fazendo-se muito fino. -Queres mais caro?... E ainda tens escrúpulos, criança! Pois olha que te não fazem nenhum favor -tu pagas, filho, e pagas bem!

E lembrou que não seria mau tomarem alguma coisa num botequim próximo.

O outro declarou que estava ali à espera de Coqueiro.

-Deixa lá o Coqueiro, homem! Tens medo de ir só para casa?...

-Mas é que não sei se me fará mal beber alguma coisa. Ainda estou em uso de remédios.

-Não sejas idiota! exclamou Paiva, puxando-o pelo braço.

Amâncio deixou-se levar, não tanto pelo prazer da companhia, como pela circunstância de se livrar de Coqueiro, o que lhe dava esperanças de ver Lúcia ainda essa tarde.

No café, defronte dos copos, a conversa voltou de novo à gente de Mme. Brizard.

-Gentinha! qualificou Paiva, atirando a palavra com o desprezo de quem lança fora o sobejo de um copo.

E, depois, entortando os lábios, numa obstinação torpe:

-A questão está no pagamento!

Amâncio riu. Sentia-se feliz; aquele dia de liberdade, depois de tamanho recolhimento, os cálices de xerez, as palavras degotadas de Rocha; tudo isso lhe picava o espírito com uma pontinha de alegria devassa. Seus gostos, suas tendências luxuriosas, volviam-lhe em revoada, como pássaro de arribação. Ficou expansivo, disposto aos desabafamentos da vaidade. Em breve, contava tudo o que se passara com ele na casa de Mme. Brizard, descrevia as maneiras de Amelinha com sua pessoa, os pequenos cuidados amorosos, as pequeninas frases significativas; narrou minuciosamente as cenas com Lúcia e disse que, ao sair do café, iria visitá-la à Tijuca.

-Está claro! trejeitou o outro, cuspilhando a areia branca do chão de pedra e batendo com a ponta da bengala sobre os pés cruzados. -Eu, no teu caso, já teria desforrado melhor os cobres!

-Achas então que eu devo...

-Ora, filho, é o que se leva deste mundo! A respeito de virtudes temos conversado! Eu cá só acredito numa castidade -a da velhice!... tirando daí...

E concluiu a sua idéia com um gesto feio.

Amâncio já recorria à moléstia para justificar aos olhos do amigo a atitude respeitosa que ocupara ao lado de Amélia -o colega que não o julgasse um tolo!... Mas que diabo havia ele de fazer, tolhido de dores, como estava, numa cama?...

Quando se despediram, Paiva deu a entender que precisava de dinheiro; mas Amâncio negou-o, apesar de bem provido, dizendo com a voz triste que «sentia muito não poder servir naquela ocasião».

O outro, sem mais querer ouvir coisa alguma, retirou-se logo.

***

Amâncio, assim que se viu livre, correu a tomar um tílburi e bateu para a casa de pensão, onde estava Lúcia.

Era um palacete, com magnífica aparência. Janelas de sacada, grande corredor ladrilhado de mármore e velhas escadarias encentradas de tapete de oleado, preso a cada degrau por um fio de metal amarelo.

Foi recebido cerimoniosamente no salão por uma mulheraça muito gorda, de lunetas, extremamente decotada, mostrando entre as almofadas do peito ramificações de veiazinhas escarlates, que pareciam miniaturas de árvores secas desenhadas a bico de pena. Em um dos braços luzia-lhe uma jóia e, por debaixo do vestido de cambraia, aparecia-lhe o pé quase redondo e empantufado de veludo azul.

Tinha a voz grossa, cheia de uu, e o lóbulo do queixo coberto de penugem negra.

Ao saber que Amâncio não ia com a intenção de tomar algum cômodo, mas sim para falar à Lúcia, retirou-se sacudindo os rins; e da sala o estudante lhe ouviu gritar ao criado «que fosse prevenir à senhora do Sr. Pereira de que aí estava um cavalheiro que lhe desejava falar!.»

Lúcia mostrou-se no fim de meia hora, a pedir mil perdões por se haver demorado mais um pouco. Fizera toilette especial para recebê-lo e parecia muito lisonjeada com a visita.

Declarou, logo, que o achava mais gordo, de melhor fisionomia. -Abençoada moléstia, a dele!

E, em resposta ao que o rapaz lhe perguntava sobre aquela nova residência, elogiou muito a casa, o serviço. «Sempre era outra coisa! Nem havia termo de comparação entre esta e a de Mme. Brizard!»

Amâncio voltou-se todo na cadeira, considerando a sala. Uma rica sala, apesar de velha -grande, espelhada, cortinas de ramagem, consolos cobertos de jarras com flores artificiais de pena. A um dos cantos um piano antigo e no centro do teto de estuque, no lugar donde espipava o lustre, um grande escudo de cores, rebentando em cabecinhas de anjos.

Falaram logo sobre as novidades da casa de pensão de Coqueiro: a saída dos hóspedes, a morte do tísico, a mudança para Santa Teresa.

-Você ali está seguro!... disse Lúcia.

O estudante protestou com um gesto, em que já havia alguma coisa das revelações que pouco antes lhe fizera Paiva Rocha.

E, discutindo os amores de Amelinha, foram pouco a pouco empurrando a conversa para o verdadeiro motivo da visita, até que Amâncio conseguiu tratar de si, das suas saudades, do quanto desejava Lúcia, do quanto sofria por causa daquela ingrata que ali estava!

-Mais baixo! Olha que te podem ouvir!...

Ele então chegou-se mais para a ilustrada senhora, tomando-lhe as mãos que cobria de beijos, e, no seu ardor, com a voz abafada, os olhos acendidos, procurava arrancar-lhe uma resposta definitiva, uma palavra qualquer que o restituísse por uma vez à tranqüilidade.

-Está quieto! respondeu a tirana. -Está quieto!

E, vendo que o demônio não a escutava, em risco de comprometê-la aos olhos de quem por acaso entrasse na sala, propôs mostrar-lhe a chácara enquanto esperavam pelo jantar. -Que ela já o não deixava sair sem ter jantado!...

Havia duas descidas; uma pelo corredor e outra pela varanda. Tomaram por esta.

Lúcia, muito disfarçada, ia-lhe apontando os cômodos e as benfeitorias da casa, com tanto empenho e gosto como se fora mesma proprietária; mostrou-lhe o banheiro, os tanques para a lavagem de roupas, o coradouro, o cercado das galinhas e por último o jardim.

Colheu logo uma rosa e, por suas próprias mãos, enfiou-a na gola do fraque de Amâncio.

Em seguida atravessaram a horta.

Canteiros grandes cobertos de verdura, saturavam o ar de um cheiro fresco de hortaliças. As alfaces brilhavam ao sol dourado de julho. Mais adiante havia um sombrejar melancólico e delicioso de árvores grandes; era a chácara; viam-se no ar as folhas largas e recortadas da fruta-pão faiscarem, como lâminas de metal brunido; ao passo que as bojudas mangueiras se debruçavam sobre a terra numa concentração pesada de sono.

Os dois prosseguiram de braço dado por entre o murmurejar tristonho daquelas sombras. E lentamente, e sem trocarem uma palavra, se deixaram ir até a espalda de um muro que servia de limite à chácara.

Havia um grosseiro banco de pau meio escondido entre bambus e trepadeiras. Assentaram-se. Um fio d'água corria da montanha e os passarinhos remigiavam trilando na mole embalsamada das estevas.

Amâncio passou um braço na cintura de Lúcia e chamou-lhe o corpo para junto do seu. Ela deixou-se arrebatar, bambeando a cabeça, num encontro apaixonado de lábios.

O rapaz parecia louco no seu desejo.

-Não! Isso não! dizia a outra. -Mostre que é um homem de espírito! Não se queira confundir com esses materialões que há por aí!

Ele opunha as razões que lhe vinham à cabeça para justificar os seus rogos: «Lúcia que não quisesse desvirtuar o amor, o verdadeiro amor, fazendo de um sentimento real e fecundo uma pieguice romântica e desenxabida.» Lembrou-lhe o que ela própria dissera, quando pela primeira vez estiveram juntos.

E, num esfolegar febril e ruidoso, suplicava-lhe um pouco de compaixão, ao menos; que não o torturasse daquele modo; que não o obrigasse a sucumbir ao desespero de sua paixão!

Lúcia não atendeu. -Ele que deixasse a casa de Mme. Brizard e viesse tomar um cômodo ali na Tijuca. Assim... bem! Mas, naquele momento e naquelas circunstâncias... Não! não! e não!

Apesar da enérgica recusa, Amâncio insistia sempre.

-Não seja teimoso, repreendeu ela, arrancando-lhe as saias da mão. -Oh!

Ele, porém, não se desenganava e até já recorria à violência.

-Pior! disse a mulher, notando que o estudante lhe desgrenhava os cabelos e machucava-lhe as roupas. -Já não vou gostando muito da brincadeira!

E, a um movimento desabrido do rapaz:

-Ora pílulas! Isso agora também já é estupidez!

Amâncio ao seu lado bufava, imóvel, emitindo sobre ela olhares de cólera.

-O senhor faz-se desentendido! exclamou Lúcia, afinal, endireitando o penteado e armando as lunetas. -Há muito devia compreender que nada alcançará de mim, enquanto eu estiver com meu marido!

-Marido o quê! desmentiu o provinciano, com a voz sufocada. -Tão marido como eu!

Lúcia olhou para ele, apertando os olhos.

É isso! sustentou aquele. -Sei de tudo! A senhora quer fazer de mim um tolo, pois fique sabendo que não faz! Trate de arranjar outro, porque comigo perde o seu tempo!

Ela o mediu de alto a baixo, levantou desdenhosamente o lábio superior, e afastou-se com um grande ar emproado e senhoril, murmurando entredentes:

-Ordinário!

Amâncio calcou o chapéu sobre os olhos, e, de cabeça baixa e passos lentos, retomou pelo caminho andando, a fustigar com a bengala as ervículas da estrada. Saiu pelo portão da chácara.

Já na rua, sacudia os ombros e disse a meia voz:

-Que a leve o diabo!



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