Uma história pouco conhecida. História de uma literatura argentina exilada. Sobre Daniel Moyano
Adriana A. Bocchino
Já faz quase dois anos desde aquela quarta-feira, 1.º de julho de 1992, que morreu, em Madrid, Daniel Moyano, argentino, autor, entre outros textos de Libro de navíos y borrascas. Quase não foi lembrado em seu País, quase não foi lido. E todos sabemos, um homem que escreve, se não for lido, acabará morrendo.
No mesmo ano de festejos e contra-festejos, eu me indagava se existiria alguma relação entre essa morte, seu texto e seus contextos, e os famosos quinhentos anos da chegada de Colombo nestas terras. Libro de navíos y borrascas é um texto de exílio, exatamente na direção contrária à daquele outro texto, Diario de viaje. De um lado, o gesto, renascentista e moderno, que narra sua viagem de aventuras. Perigoso mas, segundo dizem «descobridor». De outro, uma viagem de exílio, um texto de exílio que tenta reconstruir, porque foi destruído aquilo que se considerava conhecido. Uma insuportável diferença de saberes e de espaços que se cruzam no signo da viagem.
De fato, a diferença parece residir na relação entre o saber e o não-saber. Ambos têm algo que ver com a história pessoal e coletiva. No primeiro caso, um documento real que avaliza, permite, exige a conquista; no outro, uma ordem clandestina, mascarada, de exílio. Neste último caso, o não-saber, por descentramento imposto violentamente pela história da qual e para onde se exila. Mais do que isso, fundamentalmente, quem é esse que se exila.
Daniel Moyano nascera em Buenos Aires em 1930. Teve que passar a infância com os avós em Córdoba. Finalmente, radicou-se em La Rioja antes do exílio madrilenho de 1976. Até 1983 era ainda artesão. Morreu de câncer aos 62 anos. Em La Rioja tinha, formado um quarteto de câmara. Era violinista.
Com certeza, este fato e sua condição de escritor transformaram-no num subversivo, pelo que padeceu cárcere e tortura. Nos últimos anos dava cursos de narrativa na Universidade de Oviedo. Nunca quis voltar à Argentina. Sua produção narrativa é constituída de cinco livros de contos (Artistas de variedades, 1960; La lombriz, 1964; El fuego indeterminado, 1967; Mi música es para esta gente, 1970; El estuche de cocodrilo, 1974), antologias de seu próprio trabalho como El monstruo y otros cuentos, 1967; e seis romances (Una luz muy lejana, 1966; El oscuro, 1968; El trino del Diablo, 1974; El vuelo del tigre, 1981; Libro de navíos y borrascas, 1983 e Tres golpes de timbal, 1989).
Na realidade sempre foi um exilado. Por isso, toda sua escritura tenta, a cada passo, continuamente, definir papéis, situar-se, radicar-se. Sem dúvida, um destino marcadamente centro/sul-americano, o destino das margens e fronteiras, da perpétua exposição aos riscos da vida.
Não quero ser pessimista, mas existem certas constantes que parecem signar certas escrituras ao mesmo tempo que as definem. A situação de exílio é uma delas. Inclusive naqueles escritores que não tiveram que sair do país, mesmo ficando exilados, desterrados em sua própria terra. Trata-se da escritura que se constitui nas instâncias de um exílio. Não é uma questão exterior mas excessivamente íntima: até é possível uma nova categoria crítica. Estou pensando em Héctor Tizón, em Tununa Mercado, em Andrés Rivera, em Manuel Puig, em Ricardo Piglia, em Juan José Saer, em Juan Carlos Martini, em Osvaldo Bayer, em tantos outros encabeçados pelo paradigmático Moyano. A lista torna-se infinita como as linhas de fuga de um exílio. Estes escritores, suas escrituras, merecem ser lidos porque recompõem a partir de distintos pontos do mundo, uma história que não é e sirva o paradoxo -historicamente roubada.
Na ausência de uma terra, como o olor e a textura da terra, estas escrituras nos devolvem, nos inventam, nos permitem radicar-nos em outro mapa: o da própria escritura. Colocam-nos, colocam-se, com nomes e sobremones: o primeiro objetivo, se não é o último, é a restituição dos sujeitos após tanto desaparecimento forçado. Mas estes sujeitos não são só aqueles que escrevem. Socializado o espaço da escritura, são também os que lêem a realidade, as outras vozes, os novos sujeitos silenciados da história. Precisamente a outra história. Contra a correnteza.